domingo, 24 de outubro de 2010

Enfim, a wonderful world (6ª parte - final)

• O ano é o de 200.000.007 do cristo dos homens sobre a Terra:
Uma criatura estranha e esverdeada cava a terra fuçando com algo que seria o arremedo de um nariz híbrido, de uma época em que havia comida e havia terra, portanto, havia o que cheirar. Acha os despojos que seus sentidos lhe disseram que ali estavam desde a manhã dos tempos, e senta-se com eles em suas patas de poucos dedos sobreviventes à fome dos dias, e raras penas, curtas e ásperas e duras como as que cobrem o seu corpo, indiferente a sua raridade de abundância fóssil-alimentar. Sob uma leve chuva ácida, olha pra cima e inquire a uma estranha consciência dotada de uma moral que está além de sua ética baseada em sua mera sobrevivência:
-É fato que houve um tempo em que se podia pegar duas boas aranhas suculentas em um bom dia?!
-E que a chuva que caia não machucava a nossa pele ou arrancava nossas escamas?!
-E que as crianças não precisavam, assim que saiam do ovo, ficar escondidas para não serem devoradas pelos adultos que já devoraram seus próprios filhos?!
-É verdade que comida já foi tanta que era trocada por pequenos pedaços de coisas que não serviam para matar a fome ou a sede?! -É verdade que aqui havia um lugar desses onde a comida era farta?!
(não sei exatamente o que quer dizer essa palavra que você me disse. Farta. Imagino que tenha algo parecido com mais do que seria suficiente?!)
-É verdade que essas pequenas coisas, que não serviam para matar a fome e a sede, acabaram com quase tudo o que se podia comer?!
(Tirando as baratas enormes que nos caçam e essas aranhas, que vivem na água, que comemos?!)
-Não sei que fazer com o que você me mandou desenterrar, mas ainda tenho metade de uma aranha que eu peguei ontem e uma perna do meu último filho. Posso compartilhar. Você já comeu essa semana?



* Acho que esses que eventos que escrevo e descrevo nessas humildes fabuletas não tem o Brasil como pano de fundo porque eu sou covarde demais para admitir tal possibilidade... Ou porque quase todo mundo e covarde demais para perceber que seus netos poderão ser vendidos cozidos e enlatados para alimentar alguém... Ou alguma coisa qualquer... E a incrível suspicácia humana impede que alimentemos alguns medos que trancamos a sete chaves, na esperança vã que morram de inanição... Antes da gente...






Belém, 13 de junho de 2009.

Enfim, a wonderful world (5ª parte)


·         7666
Extraordinário:
“um grupo de humanos foge das estações reprodutoras.”
·         7766
Extraordinário:
“Um grupo de homens antigos consegue sobreviver autonomamente em uma fazenda-granja abandonada. As megalinhas apenas tomam conhecimento de sua existência, mas passam a ignorá-los, dada a sua insignificância”
·         9066
“Extraordinário: os homens, párias da sociedade, passam a ter sua terra legalizada como reserva histórica e iniciam tímidas negociações com os megalináceos”
·         17066
Extraordinário:
“os homens e as galinhas dividem o mesmo planeta. Os homens são hostilizados e controlados, pela sub-raça que são (Na opinião das galinhas e da grande maioria dos suicidas.). Alguns homens são selecionados para trabalhar para as galinhas, visando um seguro repasse dos passos (Aliterações me fazem um bem...) dos homens. Estes são pobres de espírito e maus. E vendem seus irmãos por um “feto a homenzinho””
·         27318
Hoje, Numit Irozo, homem feito, trabalhador das indústrias de esperma, passeia pelos prados, na noite dos milênios, com Kugutbá Uomm, megalinha da guarda da Deidade, responsável pela DCA (a Delegacia de Contenção de Abominações.), fugindo dos holofotes e transgredindo a maior de todas as leis entre humanos e megalináceos (É claro que vocês sacaram que Abominações devem ser lidas como práticas de sexo inter-especial (entre espécies deferentes. Sacaram?).)
Parece muito estranho (Para as galinhas, é claro), inconcebível que um humano possa ter conquistado este nível de relação com uma galinha, talvez o fato de vir da antiga região das fazendas tenha suscitado na megalinha um atavismo que ainda não fora suprimido de todo.
Soube-se que fugiram clandestinamente (Kugutbá Uomm fingiu ser ele seu prisioneiro enquanto usava seu passe de livre transporte para levá-lo pelos confins do universo.) em um eggtrans, mas na verdade foi só uma lua de mel. No retorno esconderam-se em um dos antigos abrigos dos dias pré-virada e iniciaram as experiências de compatibilidade genética (Ou seja: foderam horrores.), e conseguiram, enfim, o primeiro casal de híbridos homo(não estou querendo dizer que eram galinhas gays)-galináceos hermafroditas, que nominaram com muito carinho de Nacundus e Fegundus, muito fortes e reprodutivos, que alargaram e aprofundaram o esconderijo a fundaram uma colônia que, quando de seu passamento, aos 214 anos (Eram gêmeos e morreram juntos em um banquete antropofágico.), já contava com 7.982 membros, vivendo às escondidas das galinhas, dos restos de sua produção industrial e alimentar.
Estavam lançados os alicerces d e uma nova ordem mundial.
(continua..)

Ocorreu um erro neste gadget