sexta-feira, 28 de maio de 2010

Viagem insólita



Muitas idas e vindas em atrozes ônibus de Belém. E eu ia pra Mosqueiro 8:30 da madrugada.Quando consigo me acomodar em uma esfarrapada cadeira(ou assento.Ou poltrona) eis que ouço uma voz:
-Filho, olha só, é aquela bicha que tava ensinando aqueles negócios de papel lá na praça. Vai aí do lado dela, que ela vai fazendo os bichinhos a viagem inteira.
Mulher maldita. Se eu lutasse boxe faria questão de ir do teu lado só pra ir te esmurrando a viagem inteira...
-Senhor, não ligue pra minha mãe. Ela é mesmo de uma grosseria ímpar. Costuma ser importuna até mesmo com as baratas que está matando,quando faz sexo com a minha tia,na varanda do quintal.
Olho na direção de onde vem a voz e vejo já sentado, um garotinho de uns oito ou nove anos, com uma enorme cicatriz no rosto, que fazia com que sua boca de lábios finos e cruéis adquirisse um ar de eterno escárnio e suprema ojeriza. Era uma criança que me despertava, de imediato, uma estranha simpatia. Eu não entendia o porquê de tal evento (sou muito comum à antipatia. É patogênico e crônico). Mas aquele menino tinha um brilho de poder no olhar...
-Moço, o senhor já ouviu falar de mim?
-Não, baby, eu não sou cristão.
-Nem eu. pra falar a verdade,eu sou completamente anti-cristão.Estou aqui na terra pra difundir a mensagem de meu pai. Satã.
-Ah! Você é filho do Bush ou do papa? Você fala português tão bem e sem sotaque. Mas pra mim é difícil acreditar que uma mulher como (ou melhor: não como) sua mãe tenha tido um caso com o Bush ou com o papa...
-Não, senhor, você não entendeu direito: Eu sou a encarnação do filho de satanás aqui na Terra. Fui encarregado por meu pai de difundir o seu legado de trevas e terror sobre toda a face da terra. Estamos indo para Mosqueiro para realizar uma missa negra com todos os meus asseclas e ofereceremos a minha mãe em sacrifício. se o meu pai aceitar, é claro.
-Deixa ver se eu entendi: você tem algum parentesco com o presidente da CELPA (esta é uma crônica de época) e acha que é possível piorar o serviço de iluminação pública? Se você realmente acredita nisso, é muito ingênuo. E não se usa o termo “missa negra”, não é politicamente correto, Usa-se “manifestação cultural  de origem afro religiosa supra contextualizada em uma perspectiva elementar da leitura holístico-telúrica na concepção onírica do homem”.
-Caralho!
-Mas estou de acordo com o fato de que nenhuma criatura, em sã consciência, aceitaria o sacrifício de ter a si sacrificada a sua mãe, rapaz.
-Você é assim mesmo: Lento?
-Não, pra ser sincero, até que eu processo informações de todo o gênero e espécie com bastante rapidez, apesar de meu limitado Q.I. de 192. Só que estou adiando o máximo possível aquele desagradável momento em que você me entrega um cartãozinho para que eu, contribuindo anonimamente com a sua denominação religiosa, possa melhorar o mundo e sua conta bancária.
-Hummm... saquei!
-Pois é...
-Mas, escuta: Tu vais saltar na vila?
-Sim. Por que?
-É que eu estou muito cansado. Poderia dormir no seu colo? Minha mãe me chama no Carananduba.
-Quanto você pesa?
-32.
-Você baba?
-Juro que não.
-Uma última pergunta: Isso não é uma armadilha pra eu ser processado por abuso sexual?
-Fala sério! O que dá pra tirar de um cara que vai pra Mosqueiro em um ônibus de R$ 1,20? E minha mãe não acha que você seja homossexual. Ela te acha parecido com uma lombriga,magro desse jeito.Por isso te chamou de bicha.
-Tudo bem, então.
De fato, o satanista mirim não pesava tanto e não me babou (peidou muito, é certo. Mas não pude reclamar, afinal, não havia perguntado sobre isso. Havia esquecido) e quando sua mãe, um diabo horrível de feio, lhe chamou, prontamente levantou-se me deu um beijo agradecido (lirismo infantil pós-Jaspion) e se foi, junto com minha carteira, e os meus documentos, e o meu dinheiro todinho, duramente economizado durante meses para esse fim de semana na esbórnia.
Quando consegui voltar, de carona em um carro de cerveja, me entreguei a Jesus, e nunca mais dei papo para os filhos do diabo e outros filhos da puta que habitam as crônicas filhas dos homens, mesmo que sejam simpáticos e tenham uma bem pautada filosofia de vida. E muito senso prático. 





Belém, 22 de abril de 2007.
 

domingo, 16 de maio de 2010

Alô!

Caros colegas, acrescentei uma página com coisas do Quem pariu eutanásio, lá na barra lateral ( se estiver com preguiça, clique aqui).
Dê uma olhada, depois colocarei coisas mais recentes e, se a conexão permitir, algum som ou videozinho...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Repressão alimentar religiosa x Luli & Lucina

Era muito lindo e eles brotavam dos casulos e das vagens da terra. E eram azuis... Todos eram azuis.
E de cada matadouro, de cada fazenda, de cada lugar que seja manchado de seu sangue honesto; onde nasciam os casulos, as vagens; desabrochavam e em flor alçavam o strato rumo ao cosmo. E eram luz...
Todas as legiões levantavam aos ares, todas as falanges de centenas, milhares, milhões. E era treze vezes treze, o número delas. E eram lideradas, em seu alçar, cada uma delas por um grande espírito de porco, amadurecido pelos milênios. E só os lideres eram em número de uma falange, posto que os porcos foram abatidos através das eras. E eras. E eras.
Somromion Kadael, Porcalion Suí-Suiel, Pigmalion Porcael, Sakomumenon Orliel eram os que reuniam maior séquito, posto que eram porkubins dourados. Os porcos angelicais mais martirizados, que puderam dar a mensagem aos homens médiuns.
Somromion Kadael era o único que tinha o direito de falar diretamente a demiurga, mãe dos porcos. Era um dos porcos que entraram na arca de Manu, e foi, depois, adotado por Matusalém. E foi o porco que mais viveu entre seus irmãos: seiscentos e setenta e oito anos; e sobreviveu para ser devorado por porcos infiéis e ingratos, após ter sido sangrado para a diversão dos filhos de Gilgamesh.
Porcalion Suí-Suiel e Pigmalion Porcael foram as grandes vítimas do amor não reconhecido...
Sakomumenon Orliel era o porco de estimação do grande Hórus; o porco de Amon; o grande suíno de Rá. Aquele que levou Toth a Hermes, que perfizeram-se no grande Hermes Trimegisto. Foi o porco-motor da nova verdade que conduziria a divindade mestra. Que conduziria à Menageura Guezé, a entidade demiurga formada pelas almas ancestrais de todos os porcos desde a curva do tempo, posto que os porcos precedem os tempos.
Menageura Guezé, a potestade cósmica, foi movida, pelos sopros da curva do nada, a dar o grande grunhido, cuja nota, cujo Álef escreveu toda a apocatástase; e as partículas cósmicas, da infinidade se deram ao infinito.
Ela, então gerou todos os espíritos de porco, e os pôs para purgarem as almas dos homens em todas as acepções da forma física. Em todas as expressões da realidade os porcos tentaram os homens com seu sabor. E os homens sucumbem e matam os porcos
E Sakomumenon Orliel foi imolado no altar de Eros, e servido como antepasto, em lascas temperadas com ambrosia, em um bacanal.
Era muito lindo e eles brotavam dos casulos e das vagens da terra. E eram azuis... Todos eram azuis.
E alçavam-se ao infinito em luz, rumo à fronteira do nexo, todos em alta luz; em alta voltagem; em alta luz; rumo ao sol.
Era a vez da terra: e todos os espíritos de porco purificariam a terra.
A grande nuvem foi formada.
E foram em todas as direções do cosmo, e se reuniram no infinito, para formar a massa original. Para fazer a massa de Menageura Guezé. E, em um instante infinitesimal, se fizeram corpo e luz. E a toda velocidade atravessaram o sol.
Mercúrio.
Vênus .
Terra.
E foi um instante cegante.
Eu estava sentado, com meu netinho Artaud no colo, ouvindo os últimos acordes de Luli & Lucina em Saborearei. Da trilha sonora da novela “O grito”
Pelo menos meu fim teve um ótimo som:

E um dia
Era um dia
Era a quimera no tempo
Do Era Uma Vez
Quando nos olhos
ainda eram luz

Solidão de alguém
Que não dançou
E nem atravessou
Labirintos nunca percorreu na cor
Refletiu a sombra no espelho do amanhã

Um milhão de ver, vi
Sangue a escorrer
Um milhão de veias
Dentro percorrer
E por um milhão de beijos passei
Laços
Um milhão de braços palpitei

Sigo a par do abraço
Duplo coração pulsei
Sigo a par do abraço
Duplo coração pulsei
Na espera do que saborearei
Aroma de mel
Saborearei

Quem amar me dará
Quem amar darei
Quem amar me dará
Quem amar darei
Quem amar me dará
Quem amar darei
Quem amar me dará
Quem amar darei

E o tempo tecendo
Sua teia vã
Abrindo os caminhos
Para o amanhã

E hoje o futuro
Prometendo ser
No agora
Louco em mim alvorecer
E na sede
Estranha rede
Perecer

Destruindo o mundo
Novo mundo habita o ser
Renovando o mundo
Novo mundo habita o ser
Colho o que explode à claridade
Gosto em minha boca
Seiva sugo em flor

Sendo enfim primeiro
Em ter o lenço
Imerso em mansa dor
No jardim da rota
Me ensinando o passo firme do amor
Na espera do que saborearei
Aroma de mel (Quem amar me dará)
Saborearei (Quem amar darei)

Quem amar me dará
Quem amar darei
Quem amar me dará
Quem amar darei
Quem amar me dará
Quem amar darei
Quem amar me dará
Quem amar darei
Quem amar me dará
Quem amar darei


Belém, 14 de maio de 2010.

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