sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Partido do eu sozinho


De certa feita, estava eu passeando em um baixódromo (espécie de altódromo adaptado às minhas necessidades especiais de estatura (ou baixa estatura. Para ser mais específico))e percebi que me sinto pobremente só em uma sociedade brutal e atroz que me exclui por não fazer parte de nenhuma das muitas minorias de lei (minorias de lei não são minorias do marido da lainha).
Uma vez, quando eu fui me inscrever para um não sei o quê da vida, passei por uma vexatória e muito desagradável entrevista ( e eu estava mesmo entre vistas, já que o cara era vesgão) e, a seguir relato parte de tal inquérito:
-Senhor, como o senhor (ele disse senhor duas vezes, eu juro)definiria a sua raça?
-Eu definiria, até segunda ordem, a minha raça como raça humana. Talvez um meio termo entre o anão e o homem-cegonha.
-O senhor está dizendo, senhor, que o senhor não sabe definir a raça do senhor?
-Sim, senhor. Por quê?
-Porque nós temos muitas e muitas cotas para várias e várias raças da mesma espécie humana.
-Num brinca! Eu pensei que nesta democracia (demo=demônio/cracia=governo. Ou seja governo do demônio)todos tivéssemos direitos iguais perante o marido da lainha (lei. Desculpem, mas não pude resistir).
-Meu querido senhor, por exemplo: nós temos dez por cento de nossas vagas reservadas para os afro-americanos afro-descendentes de afro-africanos. O senhor é negro?
-Não.
-Bem, também temos dez por cento de nossas vagas para aprendizes advindos da C.A.S.A. D.O. C.A.R.A.L.H.O.(Centro de Assistência Social Alternativo Das Ótimas Crianças Assassinas que Roubam e Atrozmente Liquidam Homens Onestos (sinto muito, mas não encontrei outra palavra que combinasse com o sentido do chiste)). Quando era dimenó o senhor matou alguém?
-Não.
-Bem nós temos vinte e quatro por cento das vagas reservados para os homossexuais masculinos e vinte e cinco por cento reservadas para as prostitutas. O senhor por acaso foi encaixado em alguma destas categorias?
-Encaixado é o caralho!
-Exatamente, se já lhe encaixaram o caralho, o senhor pode ter acesso a vagas de uma destas cotas.
-Ora, vá se foder, seu filha da puta.
-Filhos da puta tem direito a cinco por cento das vagas.O senhor por acaso é?
-Não.
-Temos também dez por cento das vagas para os portadores de paralisia cerebral importados da Ucrânia (fica perto da Ucanha, lugarejo ali das virilhas dos veados).Onde é que o senhor mora?
-Nung flurfring munt!!!
-O senhor, por acaso, não está tentando insinuar com este linguajar que tem direito aos cinco por cento de vagas dos ameríndios?Ah! Nós também temos vagas para mulheres legítimas e trans-sexuais operados há mais de dez anos. Dez por cento de vagas.
-Peraí: Quer dizer que esse um por cento de vagas está reservado para os homens, maiores de idade, não homossexuais, e sem ascendentes ameríndios ou da rainha de Sabá?
-Senhor, eu fiz o possível. Lhe dei varias opções de emprego e o senhor quer justamente a vaga do filho do namorado do filho do dono da empresa?! Ah! Vá tomar no cu!



12 de maio de 2007.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ave canis


As religiões têm sido responsáveis, no transcurso da história, pela efetivação de todo um processo de estratificação social onde o que é deve continuar sendo indefinidamente. A estrutura social deve ser modificada o mínimo possível, posto que isso não seja benéfico a ela mesma. Desde os reis, os guerreiros e a ralé, composta, já desde tempos imemoriais, por aqueles que sustentam o sistema social. E, do momento que as instituições religiosas, apartando-se do foco central, preocupavam-se com seu status, sentiam-se muito cômodas incentivando tal sistema, ele foi se mantendo, modificando-se discretamente até os dias de hoje.
Os líderes sempre foram vestidos de certa aura de realidade sobre-humana, inda que conferida por nós, humanos. Uma vez rei, sempre rei, uma espécie substantiva que transcende sua própria classe gramatical, podendo conjugar-se em seus desmandos e arbitrariedades por todo o contexto histórico de uma nominação que é muito parecida em nome e efeito por onde germina e mina: o raja, dos sânscritos; o rex, dos latinos; o rix, dos escandinavos. Senhores de vida e morte que presidem (e admito o pedantismo intencional do termo “presidem”) a vida social e cabal dos que são meramente humanos, tudo com o assentimento dos deuses, afinal, não se elegeu graças a Deus? (desculpe! Não pude resistir. mea culpa!)
O exército tem muito mais privilégio que toda e qualquer população, delegados por uma instância social que nos põe em perigo: a preocupação com nossa própria segurança, pois a vida é um dom superior que deve ser resguardada de tudo, inclusive de si própria (desde que a soberania nacional não esteja ameaçada, é claro. Pois nesse caso o que é uma vidinha? Ou um Iraquezinho? Pouca coisa, no final das contas.). Desde a idade média que os exércitos eram aparelhados e equipados pela honra e glória de matar em nome de um deus de extremo amor (e não ser morto, ou ser, que seja) e defender a morada desse deus em detrimento até mesmo da morada dos soberanos terrenos, servos desses deuses, mesmo que vestidos de deuses.
Mas será que a massa popular não percebe que os reis, por mais reais que sejam, inconvenientemente são parte dessa mesma massa populacional (Odeio esse termo: populacional além ter muitas sílabas, o que onera a impressão, não soa bem aos ouvidos. Aos meus, pelo menos.)? Não são eles que compõem as inúmeras falanges guerreiras, desde o limiar da civilização humana, quando humano ainda era substantivo,e não esse pálido adjetivo tão raramente usado pelos de hoje? E que mesmo não sendo grandes líderes políticos, religiosos ou militares, são os homens populares que sustentam todos eles no lugar em que comodamente estão (e que pretendem ficar, creio) per saecula saeculorum? Por que será que os deuses do alto de sua justiça, de forma tão arbitrária, decidem quem morrerá de indigestão comendo tudo o que eu plantei pela última vez (já que morrerei de fome, sem dúvida alguma), enquanto que meus filhos olham com uma dura doença oftalmológica, popularmente chamada de olho comprido, provocada por um imenso desejo carnal (aqui abro um parêntesis (para explicar que esse desejo carnal é o de comer carne, nem que seja uma vez antes de morrer e fecho o parêntesis) e fecho o outro).
Alguns podem olhar e sorrir, outros com vergonha de um sorriso desdotado (adoro neologismos. E cataclismos) de dentes, e de si mesmos, olham. E apenas olham, enquanto as religiões permanecem distantes das raízes da crise humana, por medo de contágio que lhes confiram algumas merecidas gripes e infecções, para que parem de influenzar tantos absurdos sociais, tais como bombardeios, com e sem homens bomba, crucificações voluntárias e circuncisões involuntária. Trabulsi nos diz que, no período micênico, os santuários são praticamente um anexo do tesouro real. Mas o que vemos hoje é uma religiosidade que anexou os governos, embora estes não o percebam, a seus tesouros sagrados, e não abre mão deles. E não abrirá jamais, enquanto a população não parar para se perguntar por qual razão concorda com tudo o que é feito em seu nome. Mas para isso, a população primeiro precisa perceber que o que é feito em nome da fé, seja ela qual for, é feito em nome do homem, e não apenas em nome do Pai e do Espírito Santo. Amém?


Belém, junho de 2008.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Jardim das delícias


Desde pequeno (menos idoso) sempre tive muitos problemas com deidade. Por exemplo, eu tinha muitas dificuldades com os plurais e singulares. E eu dizia para um coleguinha: tu me deu (também não era muito bom com verbos); para mais de um eu dizia tus me Deus, e eu geralmente pegava porrada. Hoje eu também esqueço de pagar alguns cobradores, e tento me desculpar dizendo que é problema de idade. E sou ameaçado de morte usualmente. E agora falando sério muito me ofende o mau juízo que as pessoas fazem dos ateus. Eu sou um cara tão bacana...
Eu sempre estou pronto para ajudar os outros. Principalmente pessoas que possam de alguma forma me prejudicar, me agredir, me bater ou me matar, em alguma curva da vida. Eu sempre me preocupo em me manter na linha: evito gordura trans, não atravesso fora da faixa, adoro criancinhas tranqüilas (só as tranqüilas) e outros animais (o ser humano é um animal, lembra?), detesto aranhas, baratas e borboletas (sinto muito, Telma. Mas faço questão de informar que estou fazendo uma criação de idoliledeos calymorpho, para alimentar as galinhas, é claro... (eu é que descobri essa raça de borboletas, debaixo de um cobertor de lã pesada, que por sinal, eu mesmo é que joguei...) Continuo achando que borboletas são serpentes disfarçadas, só as jequitiranambóias é que são corajosas a ponto de mostrar a cara...) ou qualquer outro animal que possa me agredir ou processar. Incluo aí os cães e os gatos; e outros animais que possam indiretamente agir contra mim e queimar o meu filme: gabiru, mucura, galinha, vaca, veado (com “e” ou “i”), piranha, e outros que tais. Eu enfrento filas sem reclamar que furem na minha frente; olho todos os prazos de validade.; não como comida estragada; desejo amar todos os que eu cruzar pelo meu caminho, sabe?!
Nos ateus não iremos reencarnar, transmigrar, incorporar, ressuscitar, metempsicoticar (hã?!), ser arrebatados ou coisa que o valha. Em suma: não teremos uma segunda chance. Devemos andar na linha em perfeita comunhão com o cosmo com os deuses e com os fanáticos religiosos que acreditam que devem nos matar, que nos cercam nas ruas com aqueles folhetos cortantes, com a imagem de pessoas sangrando e mutiladas... Essas pessoas que nos ameaçam de fogo e peste, e que nos insultam e nos impingem coisas que transcendem a nossa realidade e religiosidade essencial, afinal, nós, ateus, embora não sejamos religiosos, temos a nossa religiosidade... E queremos ficar em paz com ela.
Uma vez eu estava sentadinho na porta de minha casa (procurem ler “Adolph e Isaac”) e um amigo de fliperama recém convertido (tinha outro amigo, que vendia balas, e que se converteu, e que ficava na banquinha, lendo a bíblia e, quando menos se esperava, batia com os pés nos chão e gritava “sai”; para espantar o algum diabo que, segundo ele, sorrateiramente se esgueirava para pegá-lo. Aos quinze anos de idade: religião pode ser muito perigoso) , em seu trabalho missionário interrompe a despreocupada conversa que eu tinha com um outro amigo porraloca e disse:
- Convertei-vos (não compreendo essa insistência protestante com a ênclise), pois que se aproxima o juízo final e o inferno que os aguarda.
- Égua-caralho!!!
- Qual é a vossa religião (não compreendo essa formalidade protestante...)
- Eu sou mórmon (disse o meu amigo, que de fato o era fazia uns dois meses, depois do riperope e antes do ácido)
- Eu sou ateu!!! (Disse eu, alegre e feliz)
- Você vai pro inferno, eu...
- Pro inferno, o caralho, não vou a lugar nenhum. Quem vai pro inferno é você seu cristãozinho. E quando chegar lá, me escreva...
As pessoas adoram me condenar ao inferno, como se seu pudesse ir... Eu queria um inferno bem bacana, quente... Com diabinhas... Algemas... E muita carne de porco (que eu nunca comi)... E sangue, pra eu fazer um sarapatel... Poxa seu eu fosse cristão como você eu poderia desfrutar de tudo isso... EU QUERO UM JARDIM DAS DELÍCIAS SÓ PRA MIM!!!
Mas eu me contento com uma descrição em primeira pessoa que você pode mandar para o meu e-mail.
E eu vou vivendo a minha vidinha, plenamente, sem nenhuma conseqüência futura. Andando, pagando e andando...
...e eu cobrarei de mim...
Besos! Dentes! Sopros! Abraços!

(Não gosto dos meus textos que ficam pessoais... prefiro meus eus líricos.)


Belém, 6 de fevereiro de 2010.

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