sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Oração militar


Senhor, ilumina este bandido que à minha frente corre, para que eu possa acertá-lo, pois que estreito e escuro é o caminho;
Senhor, que tua destra guie a carga desta escopeta calibre doze que consagrei para honra e glória do teu santo nome. E que acerte bem na cara daquele cheira-cola e espatife seu crânio fedorento;
Senhor, que sejam do ferro de tua vontade estas algemas com que eu prendo esta prostituta de treze anos de idade, pra que não se rompam assim como não se rompe teu amor pelos homens, meu Deus, e que fiquem bem presas no carro enquanto eu dou uma rapidinha e depois arranco os olhos da puta, para que tal infiel não me reconheça;
Senhor, que farta seja a propina, seja ela de traficantes ou de políticos, pois que a décima parte de tudo que entrar na casa do fiel deve ao templo do senhor retornar em forma de dízimo, para o sustento da caridosa obra dos verdadeiros filhos de ti, meu Deus;
Senhor, lubrificado, porém áspero, seja o meu cassetete, e que me ajude nas enfadonhas horas de tortura de pais de família, estudantes e ladrões de galinha.
Senhor, que meu sorriso jamais desbote de despeito diante de maldades maiores que as minhas, praticadas por colegas de corporação. Sejam estupros ou assassínios; massacres ou roubos; extorsões ou desmandos; pois que jamais desbotará, em meu peito tua imagem pura de toda a mácula;
Senhor, livrai-me da corregedoria, senão vai melar, porque eu vou ‘cagüetar todo o galerão, vou entregar todo o esquema, vão me “morrer” bacana, e tu vai ter que ficar na torcida pra ter vaga no inferno, porque se tiver muito cheio, eu vou aí pra cima, e tu vai me pagar a falseta. Positivo?
Amém!



Belém, 09 de maio de 2007.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Pequeno longo hai-kai sem métrica para uma chuvosa noite do verão tropical (texto 23)


Sombra sol poeira
Ar luz pó
Momento gente só

Só som sozinho
Ato arte gente
Maçã mel leite

Leite vento nó
Evento gente só
Corpos nus voz

Carne luz eu
Corpo meu seu
Vidas unas nós

Quando o tempo une raças
Quando o motivo une massas
E o dia me deixa te ver

Se a morte vai parar o tempo
E a maravilha cessar o meu bom senso
E eu não puder mais te ver

Me lembra que tudo é espaço
Que ocupamos com n osso abraço
Velho abraço,
Apertado, enlaçado, laçado, nó




Belém, 08 de junho de 2006.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os frangos e o cu de Deus


E, sob o sol, inda que sobre o pasto, postos que a pastar pastosas minhocas e outras quais porcas iguarias, parolavam um galo e seu jovem, aborrecido e somítico filho, filosofando sob as vitais vicissitudes veterinárias e o efeito que o efeito estufa, com efeito, causa nos pobres animais de granja e quintal.
-Paiê, me escute: Que porra é essa de efeito estufa?? Tem alguma coisa a ver com pratos que são postos embaixo do forno?
-Mais ou menos, meu querido. Está tudo na Bíblia das aves: Evangelho segundo São Patarrão, capítulo 1, versículos de 23 a 27: “...e é fato que virá o dia em que todo o céu e toda a terra sofrerão o castigo perpetrado pela ira de Deus e todo aquele que tiver penas tremerá e aquele que tiver asas não mais voará, pois que será o tempo do grande fim, quando as aves se oferecerão a faca dos homens; pois grande e extremo será o calor que antes, e mil vezes antes, a morte imediata que a morte futura.”
-E isso quer dizer o quê, mesmo?
-Ah, meu filho, quando Deus criou a terra, ela era oval e vazia. Aí, no segundo dia, Deus fez o interruptor. No terceiro ele apertou o interruptor e acendeu a luz. No quarto dia, como ele já podia enxergar, viu que tudo tava misturado: terra e água e céu igual uma sopa. Aí ele separou tudinho. No quinto dia fez as couves (e outras plantas sem maior importância) e os insetos (e outros bichos sem maior importância). No sexto dia ele fez a nós, os galináceos, para reinarmos belos e absolutos sobre a terra. Mas foi tão grande o seu ciúme e seu despeito para com sua suprema criação que, no sétimo dia, não descansou enquanto não fez o homem, esse animal desagradável que é o maior assassino de nossa espécie.
-Blá, blá, blá... E aí, pai? Quiquisso tem com esse calor horrível e esse fedor de matar?
-É assim meu filho: quando você ta nascendo vem por um lugar quente e com um cheiro bastante peculiar, não é? Aí, depois que está aqui, fora sua mãe lhe põe em um lugar um pouco mais quente, embaixo da asa, para manter a temperatura e você ficar bem, pois se resfriar morre. Você tá me entendendo?
-Ahn!?
-Pois então Deus cagou a terra (ou de onde cê acha que Ele a tirou) e depois botou ela no sovaco.
-Vem daí o cheiro?
-O desodorante divino venceu, porra! Sacou? (Criança inconveniente?)
-E o calorzão mais do que era?
-Ora, Ele tá usando moletom.
-Papai, o senhor não tá me escondendo alguma coisa, não?!
-Er...
-Papai!
-Bem... É que Deus era fissurado em caroço de pupunha... Só que como ele é muito responsável, pra não correr o risco de perder a terra quando levantasse o braço, esquecido de que ela tava no sovaco...
-Papai, por favor, me diga que aquele camisolão que Deus usa tem bolso...
-Bom, é que ele usou toda a linha que havia para costurar um bolso pra fazer patchwork nas tartarugas...
-Papai,ele engoliu a terra?
-Ora, Ludwig, é claro que não...
-Então...
Ante o fato de seu filho ter podido enxergar com suas verdes duas semanas de uma vida jovem, aborrecida e somítica, o que ele precisou de cinco anos de uma vida fodida dentro de um galinheiro apertado (que ele dividia com umas galhinhas sórdidas e imundas que ele era obrigado a comer, tentando sobreviver aos homens, aos filhos adolescentes dos homens e a canalha das mucuras death metal) e de muita meditação transcendental para vislumbrar, Deucalião, percebeu-se pobre e superado, à luz da verdade do novo que vem, parou de ciscar , sentou no chão, cruzou as pernas, e chorou.
Seu filho,com uma expressão cautelosa de asco no rosto, suspendeu do bico sua máscara contra peidos, e comeu um tapuru tão vil quanto sua sabedoria, quanto minha sabedoria, quanto tua sabedoria, leitor, visto qual divinamente vil é o lugar em que estamos.



Belém, 30 de janeiro de 2008.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Terra escrota

Minha terra tem palmeiras
De onde o sabiá foi devorado
Pelos nordestinos que chegaram na capital

Minha terra tem elevadores panorâmicos
Que jamais foram usados
Pelos nortistas que chegaram na capital

Minha terra tem putas
Que nunca foram comidas
Pelos sulistas que chegaram na capital

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
E eu, brasileiro, confesso
Minha culpa em meu delírio de febre

Minha terra tem letreiros
Usados pelos habitantes desta nação rota
Onde o capital estrangeiro claramente lê:
TERRA ESCROTA!


Belém, não sei o dia de não sei o mês de não sei o ano.

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