segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Uma triste canção esquerda


Já faz muito tempo desde a primeira vez. E eu achava que nunca ia conseguir de verdade... E eu subi no edifício. Arrastei-me pelas escadas (e eu sou um volteador); arrastei-me pelas escadas; arrastei-me pelas escadas... Cheguei ao terraço; andei até o parapeito. Subi no parapeito. Cheirei o ar. Vi o ar. Ouvi o ar. Saboreei o ar. Pressenti o ar assim que cheguei. Fui o ar em todos os seis sentidos de minha pobre matéria. Enchi meus pulmões de ar e me atirei ao ar sentindo os meus olhos se desfazerem em lágrimas das lembranças de meu ultimo vôo quando eu cheguei próximo do chão, quando eu cheguei no chão e de lá não pude mais subir e sofri por muito tempo... Sofri por muito tempo. Só. Foi como se tivessem cortado minhas asas, e eu ficasse sozinho... Escondido em um canto escuro para poder cicatrizar no escuro... Na minha escuridão pessoal. Na minha dor pessoal... Minha sorte foi que o salto não foi tão maior que as minhas pernas. A dor foi grande, mas não foi fatal... Mas hoje eu fui o ar e a prova de minha natureza (de volteador), e eu saltei: ao ar! E os meus olhos se desfazendo em lágrimas e eu em vertical elíptica e ascendente rumo à luz; rumo ao céu; rumo ao sol; e para fazer uma bela curva para trás. Para uma descendente. Quando eu fecho os meus olhos e sinto a proximidade do solo... A proximidade do solo... A proximidade do solo... A proximidade do solo... O distanciamento do solo. O distanciamento do solo e a superação (de meu destino de volteador).
Resistência.
Calor.
Dor.
Escuridão.
Paz.
A morte não é rápida e indolor. Eu pude sentir como que em câmera lenta o caminhão a chocar-se comigo. Esmagar meu bico. Estourar meus órgãos internos. Destroçar minhas asas. Quebrar minha cabeça. Triturar minhas pernas e me arremessar a vinte metros de distância. A morte não encerra a dor. A morte física não encerra a dor da alma, e eu pode sentir quando caí aos pés da linda menina. Da linda menininha que teve dó de mim, quando todos os outros que por mim passaram me ignoraram nos estertores de minha dor. A menina me acalentou em seus braços enquanto meu corpo esfriava. A menina ignorava que eu sujava sua linda jardineirinha... E me banhou com suas doces lágrimas diabéticas... E me arremessou ao angorá Numa!


Belém, 28 de dezembro de 2009.


Este texto é dedicado a Charles Darwin e aos pombos, volteadores ou não, que nos transmitem piolhos e toxoplasmose.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Meu primeiro conto póstumo ou A última salvaguarda do prazer do oprimido


Muito tempo faz que eu não escrevo outra coisa que não seja um desagradável e frio texto acadêmico. Textos acadêmicos me incomodam sobremaneira... E é por causa de coisas que me incomodam atrozmente que estou escrevendo. E esta é uma crônica amarga. Uma crônica muito amarga... É este o momento em que eu digo que não sou uma pessoa feliz: som alto me incomoda. Musica popularesca me incomoda (pra ser sincero, música com um período só, se for do Walter Franco (Afinal: Quem tem tutano, tutano tem; quem não tem tutano, tutano não tem). Campanhas políticas e eletivas com “Amanhã vai ser outro dia” e “Pra não dizer que não falei de flores” e outros setentismos baratos também me incomodam, pessoas que acham meus textos fofos me irritam muito... Muito, mesmo. Posso até fazer uma arte...
E todo dia quando eu saio para trabalhar, usualmente atrasado, como sempre, muito me irrita ter de atravessar a rua correndo, para alcançar o primeiro dos ônibus enquanto este se enfogueta pelas avenidas da vida.
Eu entro no ônibus.
Eu passo na roleta.
Eu (com sorte) consigo me sentar.
Eu continuo ouvindo minhas queridas músicas.
(atualmente ando apaixonado pala Denise Emmer)
Eu fecho os meus olhos.
Eu vejo a luz...
Sigo com a lua serena, pedalando pelos tetos, e percebo uma borboleta informe abanar suas asas diante de meus olhos, ocultando o vermelho do sol de Saramandaia filtrando-se por minhas pálpebras fechadas... Maldita borboleta, nunca percebi para que serve uma porra de uma borboleta além de alimento para galinhas, ou para que eu as confunda com uma barata ao pousarem nas minhas costas... Odeio as borboletas. Quando alguém canta perto de mim “sou como as borboletas...”, prontamente eu respondo “e eu vou te dar uma paulada...”, para não perder a métrica do Benito, sua Proteção às borboletas poderia ser uma marcha fúnebre... Mas deixemos as borboletas de lado, que elas são de outro texto, contexto e perfazem outro hipertexto. A minha borboleta cansou-se de ser ignorada e pousou acintosamente nos meus ombros, sacudindo-me. Suspeitei do peso (borboletas são leves.. è, tirando aquelas mariposonas que merecidamente recebem o apelido macabro de bruxas.) e, a custo, abri os olhos, e vi um vendedor (aqui cabe mais um perentesis para dizer que venderores não vendem dores, as dão de graça (des gràce (é assim em francês?),: de cabeça, de ouvido...) de balas dizendo que queria falar comigo, fazendo sinal para que eu tirasse os fones do ouvido:
O senhor me dá licença?
Eu não costumo dar licença, meu querido.
Eu queria um pouco da sua atenção!
Não costumo fazer isso de dar atenção.
Me perdoe incomodá-lo
EU NÃO PERDÔO NINGUEM QUE ME INCOMODE, PORRA!
Olhe, eu poderia ser ladrão!
Que pena que você não o é, pois eu poderia atirar em você livremente.
Eu podia estar matando!
Eu também. Pra ser sincero, eu posso! Acho que farei isso se voCÊ NÃO TIRAR SUA MALDITA MÃO DO MEU OMBRO!!!
A essa altura as pessoas já me olhavam de lado. Não se atreviam a me incomodar. O rapaz se afastou. Recoloquei os fones no ouvido: aquestas mañanas... Depois, fechei os olhos. A musica mudou para um belíssimo, concerto pra uma só voz (também gosto de Saint-Preux). E eu ainda não sei o motivo de nunca chegar ao trabalho e de não acordar do meu cochilo... Mas lembro de os outros espíritos dizerem que meu corpo foi arrastando por todas as ruas de Macondo, amarrado em um triciclo, e varas de porcos corriam atrás, lambendo o mau sangue e apreciando minhas entranhas dilaceradas pelos pedregulhos. Dizem que o que restava do meu rosto sorria, acreditam que pela felicidade de ter meu corpo espalhado por toda a vila... E que minha alma atéia alçou vôo ao paraíso com enormes asas de borboleta. Asas de estranha e clara iridescência. Asas de luz.
Mas eu vou voltar para assombrar aquele maldito vendedor de balas de gengibre. Serei a borboleta de sua decadência. Aquela borboleta enorme que vai distrair sua atenção e ficar em frente a seus olhos até que seja tarde demais e aquela enorme carreta, carregada com dezenas de troncos de mogno, ilegais atre a ultima fibra, o esmague por completo. E eu terei o imenso prazer de vê-lo subir com suas asas... De papel de bala!


Belém, 11 de dezembro de 2009.

Ocorreu um erro neste gadget