segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Uma triste canção esquerda


Já faz muito tempo desde a primeira vez. E eu achava que nunca ia conseguir de verdade... E eu subi no edifício. Arrastei-me pelas escadas (e eu sou um volteador); arrastei-me pelas escadas; arrastei-me pelas escadas... Cheguei ao terraço; andei até o parapeito. Subi no parapeito. Cheirei o ar. Vi o ar. Ouvi o ar. Saboreei o ar. Pressenti o ar assim que cheguei. Fui o ar em todos os seis sentidos de minha pobre matéria. Enchi meus pulmões de ar e me atirei ao ar sentindo os meus olhos se desfazerem em lágrimas das lembranças de meu ultimo vôo quando eu cheguei próximo do chão, quando eu cheguei no chão e de lá não pude mais subir e sofri por muito tempo... Sofri por muito tempo. Só. Foi como se tivessem cortado minhas asas, e eu ficasse sozinho... Escondido em um canto escuro para poder cicatrizar no escuro... Na minha escuridão pessoal. Na minha dor pessoal... Minha sorte foi que o salto não foi tão maior que as minhas pernas. A dor foi grande, mas não foi fatal... Mas hoje eu fui o ar e a prova de minha natureza (de volteador), e eu saltei: ao ar! E os meus olhos se desfazendo em lágrimas e eu em vertical elíptica e ascendente rumo à luz; rumo ao céu; rumo ao sol; e para fazer uma bela curva para trás. Para uma descendente. Quando eu fecho os meus olhos e sinto a proximidade do solo... A proximidade do solo... A proximidade do solo... A proximidade do solo... O distanciamento do solo. O distanciamento do solo e a superação (de meu destino de volteador).
Resistência.
Calor.
Dor.
Escuridão.
Paz.
A morte não é rápida e indolor. Eu pude sentir como que em câmera lenta o caminhão a chocar-se comigo. Esmagar meu bico. Estourar meus órgãos internos. Destroçar minhas asas. Quebrar minha cabeça. Triturar minhas pernas e me arremessar a vinte metros de distância. A morte não encerra a dor. A morte física não encerra a dor da alma, e eu pode sentir quando caí aos pés da linda menina. Da linda menininha que teve dó de mim, quando todos os outros que por mim passaram me ignoraram nos estertores de minha dor. A menina me acalentou em seus braços enquanto meu corpo esfriava. A menina ignorava que eu sujava sua linda jardineirinha... E me banhou com suas doces lágrimas diabéticas... E me arremessou ao angorá Numa!


Belém, 28 de dezembro de 2009.


Este texto é dedicado a Charles Darwin e aos pombos, volteadores ou não, que nos transmitem piolhos e toxoplasmose.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Meu primeiro conto póstumo ou A última salvaguarda do prazer do oprimido


Muito tempo faz que eu não escrevo outra coisa que não seja um desagradável e frio texto acadêmico. Textos acadêmicos me incomodam sobremaneira... E é por causa de coisas que me incomodam atrozmente que estou escrevendo. E esta é uma crônica amarga. Uma crônica muito amarga... É este o momento em que eu digo que não sou uma pessoa feliz: som alto me incomoda. Musica popularesca me incomoda (pra ser sincero, música com um período só, se for do Walter Franco (Afinal: Quem tem tutano, tutano tem; quem não tem tutano, tutano não tem). Campanhas políticas e eletivas com “Amanhã vai ser outro dia” e “Pra não dizer que não falei de flores” e outros setentismos baratos também me incomodam, pessoas que acham meus textos fofos me irritam muito... Muito, mesmo. Posso até fazer uma arte...
E todo dia quando eu saio para trabalhar, usualmente atrasado, como sempre, muito me irrita ter de atravessar a rua correndo, para alcançar o primeiro dos ônibus enquanto este se enfogueta pelas avenidas da vida.
Eu entro no ônibus.
Eu passo na roleta.
Eu (com sorte) consigo me sentar.
Eu continuo ouvindo minhas queridas músicas.
(atualmente ando apaixonado pala Denise Emmer)
Eu fecho os meus olhos.
Eu vejo a luz...
Sigo com a lua serena, pedalando pelos tetos, e percebo uma borboleta informe abanar suas asas diante de meus olhos, ocultando o vermelho do sol de Saramandaia filtrando-se por minhas pálpebras fechadas... Maldita borboleta, nunca percebi para que serve uma porra de uma borboleta além de alimento para galinhas, ou para que eu as confunda com uma barata ao pousarem nas minhas costas... Odeio as borboletas. Quando alguém canta perto de mim “sou como as borboletas...”, prontamente eu respondo “e eu vou te dar uma paulada...”, para não perder a métrica do Benito, sua Proteção às borboletas poderia ser uma marcha fúnebre... Mas deixemos as borboletas de lado, que elas são de outro texto, contexto e perfazem outro hipertexto. A minha borboleta cansou-se de ser ignorada e pousou acintosamente nos meus ombros, sacudindo-me. Suspeitei do peso (borboletas são leves.. è, tirando aquelas mariposonas que merecidamente recebem o apelido macabro de bruxas.) e, a custo, abri os olhos, e vi um vendedor (aqui cabe mais um perentesis para dizer que venderores não vendem dores, as dão de graça (des gràce (é assim em francês?),: de cabeça, de ouvido...) de balas dizendo que queria falar comigo, fazendo sinal para que eu tirasse os fones do ouvido:
O senhor me dá licença?
Eu não costumo dar licença, meu querido.
Eu queria um pouco da sua atenção!
Não costumo fazer isso de dar atenção.
Me perdoe incomodá-lo
EU NÃO PERDÔO NINGUEM QUE ME INCOMODE, PORRA!
Olhe, eu poderia ser ladrão!
Que pena que você não o é, pois eu poderia atirar em você livremente.
Eu podia estar matando!
Eu também. Pra ser sincero, eu posso! Acho que farei isso se voCÊ NÃO TIRAR SUA MALDITA MÃO DO MEU OMBRO!!!
A essa altura as pessoas já me olhavam de lado. Não se atreviam a me incomodar. O rapaz se afastou. Recoloquei os fones no ouvido: aquestas mañanas... Depois, fechei os olhos. A musica mudou para um belíssimo, concerto pra uma só voz (também gosto de Saint-Preux). E eu ainda não sei o motivo de nunca chegar ao trabalho e de não acordar do meu cochilo... Mas lembro de os outros espíritos dizerem que meu corpo foi arrastando por todas as ruas de Macondo, amarrado em um triciclo, e varas de porcos corriam atrás, lambendo o mau sangue e apreciando minhas entranhas dilaceradas pelos pedregulhos. Dizem que o que restava do meu rosto sorria, acreditam que pela felicidade de ter meu corpo espalhado por toda a vila... E que minha alma atéia alçou vôo ao paraíso com enormes asas de borboleta. Asas de estranha e clara iridescência. Asas de luz.
Mas eu vou voltar para assombrar aquele maldito vendedor de balas de gengibre. Serei a borboleta de sua decadência. Aquela borboleta enorme que vai distrair sua atenção e ficar em frente a seus olhos até que seja tarde demais e aquela enorme carreta, carregada com dezenas de troncos de mogno, ilegais atre a ultima fibra, o esmague por completo. E eu terei o imenso prazer de vê-lo subir com suas asas... De papel de bala!


Belém, 11 de dezembro de 2009.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A grande luta (Problemas crônicas de adaptação)


Hoje eu acordei morta de fome, depois de dormir o dia inteiro. Fui dormir muito cedo: seis e meia da manhã; batalhei a noite inteira e só consegui seis reais. O Paulinho ficou com cinco, e isso por que eu guardei a moeda de um real dentro do meu cu. A batalha foi, depois, pra tirar a fodida de lá de dentro ( afinal, eu tinha acabado de participar de uma suruba com vinte e sete cabuquinhos, que estavam a dois meses num navio que veio de Cametá, com um carregamento de mil e duzentos quilos de maconha prensada). Só depois de pedir pro filho da minha irmã enfiar a mão até o cotovelo, com muito esforço conseguimos recuperar a porra da moeda. Eu, feliz, beijei tanto esta moeda... Depois de dar um chiclete não muito usado da minha coleção, que fica atrás da porta, como pagamento para o garoto, eu fui na taberninha tomar um café. Só lá foi que eu lembrei que devia noventa centavos de um café anterior. Paguei. Pedi um bacana, e voltei fumando pro meu conjugadinho. Já eram umas cinco da tarde. Fui lavar minha buceta, afinal é importante que os nossos instrumentos de trabalho estejam devidamente apresentáveis. Me enxuguei e sentei na cama . Estava com um cansaço tão extremo que quando, enfim, consegui terminar minhas humildes abluções, eram quinze pras onze da noite, Me aborreci e resolvi que não ia dar, ou melhor, alugar esta noite, ia ficar sentada curtindo a minha fome a noite inteira. Ora, porra, eu dei todas as noites ininterruptamente desde os onze anos de idade, já tenho quarenta e dois, tanto tempo dando que não tenho ânus, tenho décadas, e nunca melhorei de vida, nunca vi a vida de cima, nem quando eu pegava doze caras pagantes por noite e mais uns três por caridade, vou ficar sentada curtindo minha fome; e a tristeza de ter dispensado aquele grego cego que queria me adotar financeiramente, só por que eu parecia com a mãe dele, e eu achava que ele só queria me comer... E se fosse, teria sido o único? Tempos atrás eu era um pitéu. É... Como dizia Isaac Newton, não cuspa pra cima, pois vai cair na sua cara. É, eu vou ficar aqui, curtindo a minha fome e as minhas mumunhas (não sei o que é mumunha, mas deve ser uma coisa ruim. Com esse nome... Mumunha... Só pode ser). Vou ficar sentada aqui, com a minha fome, vendo esses porcos lilases e azul cristina adejando por dentro das minhas pálpebras com suas asas de colibri, latindo de um jeito que mais parecia um oboé tronitruando castanholas de marfim; me arrastando por campos de centeio pelos meus cabelos (nunca vi um campo de centeio, mas é uma figura de retórica linda demais.Faz eu lembrar de uma parte da minha adolescência, em Capitão Poço), me arrastando pelos meus cabelos até os umbrais do paraíso (outro recurso de estilística, esse é de um padre que eu atendia em meus áureos tempos) e pude ver muitos caras lindos e todos, todos sem órgãos sexuais (nas portas do paraíso eu não posso escrever pau ou pica), e todos me ofereciam dinheiro, cigarros de primeira qualidade, sem me pedir nada em troca que não fosse pra eu abandonar essa vida. Não tinham sequer um orgãozinho; apenas mulheres, mulheres enormes, lindas e suculentas, como eu gosto... De repente passa um avião enorme, um avião com asas de pato e rabo de coelho que aterrissa como uma libélula francesa. Eu entro e ele me leva para as estrelas; estrelas azuis, amarelas e rosa choque, como eram as estrelas de minha Moscou. Como eram belas as noites encarnado claro da minha Rússia, antes de eu vir pequena, amigada com o meu primeiro marido. Eu tinha nove anos, eu vim da Rússia pro Iriri, com o meu finado marido, Wladimir Puttisgrilliakov. Nessa época eu ainda não tinha fome. Mimi foi morto por uns posseiros que invadiram e tomaram a nossos cinco mil e trezentos acres quadrados (existe acre quadrado?). Eles invadiram e mataram o Mimi, depois invadiram e tomaram minha honra e minhas pregas. Todos os mil, duzentos e trinta e dois homens do nordeste me invadiram; e os cachorros deles; e os jumentos deles. Todos me enrabaram. Todos. E foi a partir daí que eu caí na vida. Fui andando, caminhando ao longo do canal(?!), e passando enfim por todos os municipiozinhos de Mirindeua, até que eu, mais que alforriada, cheguei em Belém, com treze anos, e com um cu enorme, que eu precisava costurar toda vez que eu não estava trabalhando, por que eu tinha muito medo de minhas vísceras caírem no chão, se eu abrisse muito a perna, pra tomar um ônibus, por exemplo. Foi muito bom, chegar na cidade e tomar um ônibus, depois de a vida inteira só tomar no cu, na buceta, na virilha, no sovaco e outros lugares, de acordo com a criatividade do cliente. Lugares em que eu voltei a tomar depois que eu gastei todo o meu último dinheiro na passagem de ônibus, (na época era o Circular)... Aí, tão cedo, começou a decadência... E a fome, ou melhor, mais fome, a minha sorte que eu encontrei a minha irmã, que vivia na cidade com o Paulinho, o meu cafetão, que passou a administrar os meus bens (leia-se órgãos sexuais e demais órgãos internos) pela quantia fixa de quatro salários mínimos por mês, e noventa por cento do meu faturamento. Nunca dei tanto na vida. Dias sem comer ou beber água, só mesmo fodendo. Raquítica. Acabada. Em paz. Até que ao meta deixou de ser atingida. Eu tava muito escrota... Uma vez eu fiquei um mês sem foder: tive de doar a minha medula pra conseguir o dinheiro; Outra vez doei um rim; da outra foi um pedaço do fígado; e da outra eu doei uma córnea. Essa o Paulinho mesmo pegou, quando me acertou com uma soqueira. Ele não era uma boa pessoa. E a fome foi ficando cada vez pior. Era muita fome. Por vezes era tanta fome que eu já nem queria mais comer... Voltando ao meu delírio, eu estou nas estrelas, ”sentindo o dia dilatar de grão em grão, a sombra contrair ao contra tempo de um hai-kai” (adoro frases feitas. Já disse isso?!), quando de repente eu ouço uma voz dizer: ”Puta do caralho, não poderás habitar a morada do altíssimo. Ficarás no limbo, na seção vinte e cinco, que é o numero das vacas. E volta logo que já é hora de acordar”. Mas eu não vou acordar. E não vou sair daqui desse paraíso, onde nenhum homem tem órgão sexual, e as mulheres são lindas (vou me esbaldar), não quero nem saber se a voz disse que eu não posso ficar... Os homens e as mulheres disseram que eu poderia ficar, e eu vou ficar SIM. Não vou acordar, não. Não mesmo. Eu ouço de longe, aqui neste lago de paz, o meu sobrinho abrir assustado a portas do quartinho pra avisar que o pai dele vem pegar outra parte de mim, provavelmente os órgãos que sobraram. Só que ele não vai poder levar nada: Eu morri, e minha identidade não é de doador. Se fodeu.



Belém, 22 de março de 2007.

Coisas sobre o saci que você não sabia (Problemas crônicas de adaptação)


Sacis são criaturas cruéis.
O primeiro saci nasceu na Caldeia (trocentos a.C.). Era, logicamente um saci caldeu. Esse saci viveu muito tempo sem ser preso em uma garrafa(graças a Dadá! Odiaria viver em uma garrafa de terracota sem vista para o mar da Babilônia (O Eufrates - em uma leitura mais poética) - Detestava garrafas-sala conjugadas), porque apesar de ter apenas uma perna, tinha uma longa cauda de Caldeu (mil perdões pelo trocadilho infame), na ponta da qual ele botava um sapatinho e vivia como um deles. Um comum cidadão caldeu (RG e tudo).
Aí, na dita idade média, na corte do rei Arthur, teve, por sorte, apenas a cauda amputada quando, cavaleiro da Távola Redonda, bateu-se (bateram nele) com os turcos otomanos, sumanos (turcos de Cametâncio), e suprimos (os de Abaetetuba) na cruzada para tomar-lhes Jerusalém (e toda a produção anual de cachaça, dos últimos).
Amputado, puto fugiu o saci caudeu já sem cauda, com um pote de jilós em calda (só para ser lembrado por caldeu, com “éle”, e não por caudeu, com “u”) e foi morar no mato, onde ficou um longo tempo sem ser incomodado pelo INCRA, até ser encontrado por Robiúdi na floresta de Sherwood (floresta vizinha a de Cherwood, onde morava a Cher, outra criatura abominável e mitoilógica).
Por não gostar de andar a cavalo com o célebre bando, do qual tornou-se membro honorário, foi para Portugal, onde morou num bonito sobrado que comprara, com um troco que tinha ainda do tempo das pilhagens, lá na Mouraria , também tinha um outro em Alfama, que alugava para sobreviver, até que, com a febre escravocrata, foi trazido para o Brasil, pensando-se que era um negro que economizaria sapatos nas lavouras de café da novela das seis da Globo (sua estréia na tevê no horário das seis), de onde, cansado dos maus-tratos, mais uma vez fugiu, escondendo-se no “Arraial dos tucanos”. Foi aí que ouviu, passando para a escola, crianças que cantavam uma musiquinha assim: Seu Lobato tinha um sítio. Ia-ia-ô...
Então deu o estalo: Resolveu fazer o teste na TVE para participar do Sítio do pica-pau amarelo e, utilizando-se do costume que tinha de usar longos vestidos, foi, ao lado de Zilka Salaberry, a primeira Tia ’Nastácia que vocês assistiram, crianças.


P.S: Referendando o segundo parágrafo, existe um mito de os sacis utilizarem seu órgão sexual, devidamente calçado com uma botinha, para se camuflarem junto a sociedade e influenciar a política mundial;( Dizem até que Idi Amim (não sei se a gente escreve Amim ou Amin, só sei que pra mim muito tempo faz que escreveram) foi influenciado por sacis.) Mas ,gente. Isso é mentira: saci não tem órgão sexual (eu já vi um saci, e não me desmintam! Porque a Xuxa é ridícula e também vê duendes), isso é intriga da oposição, que quer banir os sacis dos eventos infantis por oferecerem risco de dano psicológico(as crianças ficam confusas pelo fato de os sacis de suas festinhas estranhamente terem duas pernas). Essa historinha foi invenção das freiras da Abadia de Sant’Chana, cronoilógicamente situado na idade média, lá em Iririfordshire, próximo do cu do futi, na Europa central, que na tentativa de esconder um bofe negão, lhe deram uma touca vermelha (que eu lhes asseguro: o saci, que eu legalmente represento, afirma que sempre fez questão de exibir seu black power, afinal, black is beautiful!), para apresentar ao inquisidor que quisesse se meter à besta. Sempre partindo do princípio que reza que na idade das trevas todos os bofes são pardos.


Belém, 10 de janeiro de 2005.
Com alterações em 27 de janeiro de 2007.

Na sala de Alice (Problemas crônicas de adaptação)


-É tão estranho - disse a altaneira dama, ao ser recebida pela bela mocinha - Tudo está fora de lugar... Por que estes móveis de sala na sala? E como vou acender as luzes se elas estão no teto?
-Eu disse que seria diferente - disse a pobre garota - Eu disse... Mas você insistiu - Complementou, lançando -lhe um olhar penalizado.
-Eu sei... É estranho... Meus açúcares, por favor (sinto -me desviver!).As pessoas nos olham com os olhos, e é como se não nos vissem! Lá nos viam com os narizes, para nos saber; nos lambiam com os ouvidos, para saber o sabor de nosso olhar...
-Eu disse que seria diferente...
-Mas é estranho demais: os carros estão todos na mesma contramão e... Veja! Um acidente; as pessoas foram atiradas fora desse pequeno elefante de rodas; estão em estado de desvida extrema... Olhe, menina:desviveram! Não adianta estarem todos na contramão certa, não. Não é assim que se sufocam as vontades de se estar na mão certa. No meu país obrigo todas as pessoas a irem contra as leis; e os animais também. Sua gata devia ser decapitada por não mugir.
-Eu disse que aqui é assim, diferente - disse a menina, meio assustada.
-É - disse - E isso é estranho: se essas leis determinam o que é certo e o que é errado, determinam o que é justiça, para fazer as pessoas felizes, por que aquelas estão tão tristes vendo os corpos na estrada? Heim? E vão punir os coitados por não estarem de acordo... Que culpa têm de estar na mão e todos estarem na contra-mão... Então?O que é certo? O que é errado? - agitava-se, a dama - É por isso que as pessoas daqui ficam tristes: Não podem pensar! Onde estão os legisladores que ainda não foram decapitados? Ah... Se fosse em meu país...-a agitada dama suspira - Mas, tudo bem, eu vou tomar uma atitude: vou dar um jeito no que está errado! Tudo! Vou mudar tudo! Aí, sim: as pessoas vão deschorar (ou sorrir como vocês dizem) e então, a população...
(-Chá, majestade? - interrompendo, pergunta à bela, tímida e aterrorizada, porém decidida, jovem.)
(-Bem frio, e com bastante sal, querida.)
-(O que eu dizia, mesmo?) (Ah! Sim:) Então a população toda ia me ajudar a plantar as árvores nas nuvens, e a passar o sol em uma peneira, antes, e tomá-lo, depois; desconstruir os prédios e plantar as vacas; andar nu na chuva e apagar incêndios com aguarrás, enfim, a usar todo o descondicionamento que...
-Seu chá, senhora - disse, friamente, a descontente menina, que dentro da xícara derramara um balde de veneno, à dama. E sentou-se para tomar o seu (sem veneno,é claro), enquanto a rainha continuava a vociferar os maiores impropérios sociais que conhecia e mais outros que ia inventando, no que tomava seu chá. Até que,com estranhos esgares de dor, contorceu-se e caiu no chão, sem jamais parar de propor suas mudanças, agonizou lentamente em seus espasmos finais diante da impassível e embrutecida menina jovem e bela que lhe havia dito que aqui é diferente. (Não gostamos de mudanças na desordem natural das coisas) .


Belém, 13 de abril de 2003. (12:30h)

Droga Lima© (Problemas crônicas de adaptação)


Devido o fato de muitos amigos e inimigos (esses a maioria) sempre pedirem dicas de remédios que sejam tiro e queda, e eu, apesar de hipocondríaco, jamais saber de um que possa livrar o mundo desse mal (os indivíduos que insistem em economizar médicos, se os doentes não forem eles - Claro. É isso aí: no cu dos outros...) para lhes receitar, resolvi, então, abrir uma humilde, porém limpinha, farmácia de genéricos, manipulação de empregados e bolinação de empregadas.
E assim pude contribuir para a felicidade geral da nação, permitindo que muitas pessoas possam, livres de preocupação, descansar em paz (ops!), com uma lista inicial de remedinhos para as mais diversas afecções comuns à plebe rude e ignara.
Lá vai:
• Mucobucetaína - Indicado para as afecções leves do trato laringológico provocadas por pentelium engatatus. Apresentação: embalagens com 10, 20 e 50 pastilhas deliciosas (não chupo outra).
• Vulvovagina - Indicada para halitose leve e para quem curte uma menos melada que a Mucobucetaína. Apresentação: embalagens com 5 unidades enormes e frouxas que podem ser usadas como sacolas de feira. Dentro da validade apresentam cheiro característico e, depois das seis da tarde, sempre devem ser lavadas antes do consumo.
• Dormirato de baratinol - Indicado para distúrbios do sono (compulsório) e para facilitar a vida das putas que querem limpar o sujeito. Apresentação: duas pílulas pequixixitinhas que devem ser administradas no copo de cerveja do otár... paciente sem que ele perceba, de preferência, pois pode provocar sérias reações adversas (para quem as portava).
• Engordato de brocol - Indicado para enrolar você. Apresentação: Bocetas com 270 pílulas de açúcar (otário) que a sua filha de 15 anos vai usar por nove meses (otário) pra te engripar bem bacana, dizendo que é fortificante, e, depois de ter dado horrores, te dar um netinho lindo (que pode te provocar reações adversas, mesmo que tardias)(otário).
• Calmato paraotarium - Indicado pra você, baby. Pra te ajudar a engolir o de cima. Apresentação: Vovô (desculpe, não pude resistir). Vem numa caixa com uma corda para você se enforcar(sinto muito, não pude resistir novamente). Agora é serio: Vem em um envelope com um convite da sua irmã alcoviteira, lá do interior, anexo a uma passagem (da qual você com certeza vai rasgar a volta), para a sua filhinha ir conhecer o dito interior, depois de todos os cujos do quarteirão já terem ido e vindo, com ou sem lubrificante, diversas e felizes vezes do interior da sua dadivosa crionça. Afinal é importante resguardar pelo menos a sua honra (otário).
• Paralinguativa raboadentrum - Lubrificante íntimo. Apresentação: bisnagas de 35 centímetros para você usar associado a leite condensado e licor de cacau.
• Pombato de pirocaína - Indicado como estimulante sexual. Apresentação: supositórios em formato de dedo médio que você deve tacar no rabo do próximo (No meu não!) que não comparece mais. Esse eu criei por encomenda para uma amiga querida administrar em seu marido. Não sei se ela usou.
• Maleato de pirocaína - Desestimulante sexual para adolescentes com coelhite aguda. Vem em formato de um cinturão de couro que deve ser administrado três vezes ao dia associado a banhos de água fria. Também foi feito por encomenda para uma amiga minha que precisa que seu filho desocupe o banheiro pelo menos uma hora por dia, para tomar sol.
• Coçato de piracanina - Indicado para pira vulgaris, que eu geralmente encontro na minha vida profissional e diária. Vem em forma de um sabonete que cria uma aura mágica e luminosa que te livre dos ácaros e te deixa livre, leve e solto como um bom módici.
• Vulgato de baixariol - Pro caso de você sentir alergia a algum dos remédios aí de cima. Apresentação:vem em forma de uma máscara de hipocrisia canina.
• Simplórium - Indicado para você que não compreende o que eu estou querendo dizer. Apresentação: Vem em uma caixinha e se parece com um par de orelhas de asno.
• Neo angigno - Pra você que jura que não compreende benzinho. Que jura que não me entendeu. Que jura que não sabe de nada das coisas. Apresentação: vem em forma de uma imensa saia de viscose de seda, muito eficiente pra uma discretíssima foda cebola.
• Veneno (sabor de menta, cereja ou framboesa) - Indicado para aqueles que não me amam. Apresentação: Vem em formato de abacaxi. Pra eles tomarem no cu.
• Calatum prasempris - Esse é o que os meus inimigos tentam de todo o jeito me fazer usar. Apresentação: Ih, cara, é de tudo que é jeito que eles disfarçam pra tentar me enrolar: vem disfarçado de cu, de chiclete, de Coca-cola,de buceta, e de outra coisas que eu adoro. Mas não adianta, eu não sou besta.
• Calmáti quétati sinombátoti composto - Indicado para casos de hiperatividade infantil. Apresentação: vem em forma de uma havaiana de ferro teleguiada por um chip iraquiano.
• Algajofra combosta - Remédio bara bezoas gonstibadas emagrezerem. Abrezendazão:drágeas gom um geiro esdranho.




Então, crianças é isso aí, e, estando em janeiro, outro outubros virão, outras manhãs plenas de paz, de luz, e de novas listas de remédios.
(espero, sinceramente, ter contribuído, com esta pequena lista de mezinhas, para a diminuição de seus anseios profiláticos, enfadonhos e hipocôndrios.
Se um deles não surtir efeito, por favor tome todos de uma vez e me deixe em paz .
Aceitamos encomendas.
Também arriamos (!?) despacho.
Também temos um terrível vício de nos referirmos a nós mesmos redundantemente na primeira do plural, mesmo que tenhamos iniciado em primeira do singular. Talvez seja por considerarmos o que escrevemos um crime literário e, assim fica difícil descobrir o autor. Auto-preservação. Eu acho.)



Belém, 29 de janeiro de 2007.

Expectativa: Dívida! (Problemas crônicas de adaptação)


Hoje, depois de cagar, tomando o meu café (instantâneo), dei uma olhada no jornal e li uma coisa extremamente engraçada acerca do fato de a expectativa de vida ter aumentado maravilhosamente: 72 anos de média! Que luxo!
Antigamente era muito mais fácil, afinal, não se esperava tanto tempo assim. Já se nascia vivo. Hoje é todo um processo filha da puta para uma utópica vitória escapista que quase sempre termina em merda-merda mesmo.
O desgraçado, depois de sobreviver a três quase abortos espontâneos (a mãe não foi obrigada a tentar tirá-los (super-espontânea)), subnutridamente nasce para que a digna genitora possa ser incluída em um programa social (possivelmente o bolsa-1,99)-O feto em sua finalité.
Rapidamente, felicidade, cresce para ser institucionalizado, e ser desinstitucionalizado com 18 anos, rumo a um emprego subalternamente fodido, condizente com sua única calça e sua única camisa fodidos pelos muitos dias enfrentando o tempo, onde, comendo uma vez por dia, durante 30 anos consegue juntar o suficiente para dar entrada em um barraco 2x2 em uma invasão, e se endividar para o resto de seus 72 anos de vida com um agiota (que também viverá 72 anos). E segue em direção ao único conforto da espécie: foder desesperada, vil, vulgar, múltipla e obscenamente com todo e qualquer animal que não possa resistir a seus atributos físicos até encontrar uma alma gêmea que com ele engatilhará uma produção em série de, pelo menos, mais oito fodidinhos, para alimentar o comércio internacional de órgãos para pessoas que também querem viver até 72 anos (e podem pagar por isso) .
Seu miserável tempo de vida, então, se estende em um continuum onde as frustrações se confundem com a fome e uma imensa vontade de viver plenamente por não compreender que para viver plenamente basta não estar morto. E caminha invariavelmente para outra incompreensão dos fatos: Ao completar seus caquéticos 72 anos, acha que completou o tempo de expectativa por uma vida, que enfim poderá vivê-la. Pobre alma (pobre tem alma?) que não sabia que, tendo o prazo de validade vencido, o que lhe resta e expirar e morrer plenamente (para o que o único requisito é não estar vivo).



Belém, 02 de dezembro de 2006.

Adolph e Isaac (Problemas crônicas de adaptação)


Era uma bela boca de noite. Isaac acabara de ajudar seu irmãozinho cego, Adolph, a caminhar até a porta da rua, de onde foram assentar-se ao meio-fio - nem sempre era fácil cuidar de Adolph: muito higiênico, exasperava Isaac.
Então, ambos em sua plebéia beleza, com o pescoço entalcado e o cabelinho penteado, com suas havaianinhas gastas, do alto de seus oito anos, deram-se à Filosofia, hábito do início de suas noites.
-Isaac, para mim é muito estranho conceber o mundo como você o consegue conceber. Nunca o vi.
-Cego de nascença, o mundo para você é uma leitura sensorial que minha visão, atrelada às cores, jamais teria.
-Isaac, meu querido irmão, você não sabe o que é ter um sentido a menos; ater-se a caleidoscópios de sons e sabores - acende um Calton Ligth© (dera pra fumar ligth depois desse papo de câncer). Por exemplo: como é um carro?
-Adolph, vou tentar explicar: carros são coisas compridas, de cores estranhas; mais altos atrás que na frente, a maioria; alguns são mais baixos. Aí, esses têm atrás uns tanques (você sabe o que é um tanque,né?!), tipo que servem para colocar coisas dentro; os carros ficam em cima de rodas...
-O que são rodas, mano?
-RODAS?! COISAS REDONDAS presas pelo meio, e que servem para...
-Rodar?!
Nesse momento, um Chevette (é assim que escreve?), dirigido por um motorista vesgo... e alcoolizado, sobe o calçamento e, esmagando os garotinhos, cancela duas belas e promissoras carreiras futuras. Parando o carro, salta o motorista, abre o porta-malas, pega um Kofap® novinho e, brutal e atrozmente, espanca até a morte uma meiga e doce velhinha que, estarrecida, assistira o evento; verifica o estado do pára-choque e parte, a toda, para não perder o Jornal Nacional.
(uma porta se abrindo e um grito na noite. Um grito à morte de três extremos!)


Moral: Se houvesse anestesia, não haveria três horas de agonia.


Belém, 28 de abril de 2006.

A prodigalidade das crônicas (Problemas crônicas de adaptação)


Alguns dias é assim: eu acordo, penteio os meus raros cabelos grisalhos, e saio para garimpar as emoções da vida. Umas vezes não tenho sorte, mas quase que invariavelmente eu a tenho. Como naquele dia em que eu, muito puto da vida, peguei um daqueles ônibus vespertinos, cheios de moralistas de final de semana e pseudosófos que, como eu, que foram castrados no saco suplementar da paciência e que, para aturar a merda toda, precisam levar os testículos no bolso, pra sobrar espaço no saco.
Na minha frente (eu estava de pé) sentavam-se um digno senhor e seu filho (provavelmente filho da puta) conversando amistosamente sobre as vicissitudes da vida e as formas de encará-las, coisa que ele, como pai e sujeito vivido e experiente, a força de mil e uma dificuldades enfrentadas em seu dia-a-dia proletário, vulgar e ecologicamente correto, melhor sabia enfrentar; quando entra no bonde um vendedor de picolés (desses autônomos e automáticos), oferecendo humildemente seu humilde produto, sob a humilde e esfarrapada bandeira de ser humilde e proletário, como todos naquele ônibus que, por sinal, tinham a humilde obrigação de comprar seus picolés. É claro que, se escondendo sob uma humilde e factual surdez, quase todos os passageiros se eximiram de comprar, excetuando-se, pois sim, o nosso herói que, lançando mão de sua semanada, resolve dispor-se para com aquele vitorioso profissional. Lhe estende a nota de cinco rublos, pede um picolé de vodka e o troco, no que é prontamente atendido(clareza,presteza e eficiência são garantia de freguesia).
O garotinho, do alto de seus oito anos de vida e tristeza, cabisbaixo pelo aluguel do pai, também com seu saquinho cheio, abre o saquinho do picolé, prende entre os dentes (o do picolé, é claro. Ou assim espero), e debruçando-se por sobre seu papai, abre a janela para os dez graus abaixo de zero e pronto: lá se vai a embalagem do picolé ao sabor do vento, rumo aos Urais.
Horrorizado o pai exclama:
-Friedenrichkovitch Junior!!! Foi por acaso isso que eu em toda a nossa convivência lhe ensinei?! Você por acaso não percebe a enormidade de sua ação infame para com todo o cosmo? Esse mesmo cosmo que Deus criou e do qual você faz parte? Simplesmente decide a seu bel prazer ignorar toda a reação em cadeia que pode decorrer de seu ato? Que esse único saco pode voar por dezenas de quilômetros e cegar uma velhinha no momento em que ela está atravessando a rua, e que neste justo momento um carro pode vir a 110 kilometros por hora e colhê-la, arremessando-a a cinqüenta metros de distância, bem em cima do embaixador dos Estados Unidos, que fatalmente morrerá com o pescoço quebrado, e cujo corpo rolará para dentro do Volga, e só será encontrado, putrefeito por sinal, quatro dias depois de árduos trabalhos do FBI e da nossa guarda Nacional, e isso após as tropas de paz da ONU terem tomado a cidade e estuprado sua mãe, suas irmãs e sua avó diante de nossos espancados olhos (espancados mesmo, e não espantados). O corpo será o estopim de uma catástrofe em proporções extremas, e quando a França se resolver a interferir por nossa debilitada pátria, terá já esta sido assolada por trocentos megatons das mais fodidas bombas nucleares, o que fará que as outras nações que conluiaram para nos foder, queiram parecer boazinhas e ataquem os Estados Unidos, e as naçõezinhas de merda deixem de importar pepinos transgênicos de lá (e importar prostitutas de 12 anos para lá), o que levará ao caos mundial e daí por diante.
-Friedenrichkovitch Junior, meu filho amado, você percebeu que sua atitude irresponsável de atirar o papel de picolé pela janela deste coletivo pode nos levar a um hecatombe atômico que conduzira a terceira guerra mundial, e que todos os milhões de vítimas dela terão perecido por culpa sua? Responda, Porra!
A pobre criança levanta e pede para a mulher grávida a sua frente (havia uma, desculpem não citá-la antes) a Colt 45, carga dupla, carregada com oito balas dundum, e, depois de, com os olhos marejados de contrição e arrependimento, pedir a benção e beijar seu velho pai, despedaça sua cabeça comunista (dele não, porra, do pai dele) com três das balas, após o que, com toda a platéia em reboliço, devolve para a moça (que não quis pagamento algum, além de um abraço do garotinho) e me pede para puxar a cordinha que não alcançava. Desce na próxima parada.
Quando o motorista deu a partida ainda pude vê-lo com seus frágeis pezinhos caminhando pela neve desta bela Moscou, rumo ao bar “Inferno de Kruschev”, a sentar-se e pedir à garçonete que, a despeito do frio, o atendeu em trajes sumários, uma Coca Light, um pão com cebola e manteiga, e uns lenços para enxugar o pranto de seus olhos em luto (o que eu lhe oferecera por ocasião de sua descida do carro ele, depois de educadamente agradecer a gentileza, terminantemente o recusou. Provavelmente por me perceber gripado e, portanto, mais carente que ele do dito cujo, afinal é comum a gente ver crianças chorando nestes tempos bicudos...).


Belém, 10 de dezembro de 2006.

A cobra encantada (Problemas crônicas de adaptação)


Bom, eu nunca me achei uma pessoa normal (pra ser sincero nunca me achei necessariamente uma pessoa), mas tenho desejos (muitos), vontades (ferrenhas) e opiniões (as mais cruéis possíveis).
Mas, hoje, vamos falar sobre vontades. Sobre as minhas, afinal, sou eu quem está escrevendo esta porra e eu ignoro soberba e ignorantemente as suas vontades, tirando essa de limpar sua insutil bunda com esta humilde folha de papel, onde por acaso seus olhos passearam, ó amado leitor (todo o ser que escreve é um puxa-sacobabaovistafilhadaputa, mas tem um método:1º-Bajula a criatura até que ela leia o seu pergaminho; 2º-Tortura a criatura em questão até que, constrangida, ela dê a sua mais sincera opinião; 3º-Sai espalhando para os outros puxa-sacobabaovistafilhadaputas da sua caterva, a ignorância daquele lítero-plebeu, para inflar seu ego). E uma de minhas vontades é a de adaptar um conto do cancioneiro popular paraense para que eu possa ser chamado de bonzinho e possa entrar nas escolas primárias sem precisar ser revistado e acabar com aquele maldito curupira com o cabelo ruivo do Rebelde e a matinta pereira boazinha da Silva, enfiar um pouco de realidade cultural na cabeça desses facistinhas (aí incluo o corpo docente, também) Mas como eu disse, quero ser (ou parecer, não há diferença) bonzinho. E basta de digressões .
>aham<
Era uma vez há muito tempo, lá pela década de 60, no município de Cuceteua, que fica espremido entre a Vila de Bucetatuba e o Cu do Futi, lá no interior do interior do interior do meu Grão Pará (é um lugar encantado aonde você chega quando lhe mandam ir à Casa do Caralho, opção regional de veraneio, e se perde no caminho) havia uma bela família composta por um pai, belo, jovem, alto, loiro, de olhos azuis, e forte (como eu mesmo), e uma bela e jovem senhora forte, saudável e bonita como a Vera em seus dias de Jocasta (eu como mesmo, se bobear), tão parecidos que se bobear eram filhos do mesmo pai, aquele alemão do paquete de carga da Sinapp (é assim que escreve?).
Esses dois pombinhos só não eram mais felizes porque nunca, apesar de investirem pesado na área, nunca foram visitados pela cegonha(as vezes o jaburu da mãe dela os visitava, mas só piorava as coisas), o que muito os entristecia, até que um dia a mulher resolveu fazer um pacto com o cão, minto, foi a uma clinica de fertilização in pote (não podia ser in vitro lá no interior (preconceito maldito!)) e conseguiu engravidar e, depois de nove meses (claro), um lindo bebê nasceu: 6 quilos e meio. Natural! (você é quem comanda o coração da super-chana).
Quando saem do Parteira’s home (franquia americana), são abordados por uma velinha (quase apagando) que lhes diz:-Vassuncês toma muntcho coidado cum esse mulequi. Batiza lugo, num dexa só, qui us incantado vem i pega êli.
Muito impressionado com o comunicado, Apolo disse a Perséfone, que tomasse muito cuidado com o seu filho, quando ele saísse pra trabalhar. Porém sua esposa deixou o neném sozinho, enquanto foi quarar a roupa. Quando voltou, já era: tinha sumido.
Quando o marido voltou e viu o seu pranto desesperado, e soube a razão, deu-lhe uns bons foguetes e disse que ela que se virasse pra encontrar o filho, por que se ele não trabalhasse como conseguiriam dinheiro? Só se ele desse o rabo na esquina, porque se ela fosse dar o dela frouxa do jeito que tava só ia conseguir uma agulha com uma perna de linha para fazer um fuxico no cu. E que só voltasse a por os pés naquela casa com o bebê .
Então começou a saga por varias igrejas com os nomes mais absurdos possiveis, até que por recomendação de uma freira de Iansã foi a um terreiro, ali em Santa Isabel, onde a mãe disse que ela fosse com um copo de leite de peito de mulher negra (algum fetiche?) até o Igarapé do Morredouro e lá ela iria ver uma cobra muito grande e muito feia. Que não tivesse medo, que jogasse o leite para que caísse uma gota que fosse na boca da cobra (oh!Baby,baby!)
Bom, ela teve medo quando viu o tamanho da cobra e ficou toda melada com o leite que caiu sobre ela. Não ficou nem um pouquinho pra pobre da cobra que ainda sacudiu a cabeça pro lado da mulher e depois foi embora reclamando que agora ia ter que encontrar um rio por que o encanto tinha aumentado pela covardia daquela mulher e que ele ia ficar tão grande que não ia caber no igarapé; e ela nunca mais ia encontrar seu filho, que era ela (a cobra,claro)...
E a mulher foi embora chorando sua pobreza de espírito pela estrada a fora...
...Bem, eu sei que não foi uma história muito da convencional no que diz respeito ao método tradicional regionalista, mas eu tentei.


Belém, 27 de dezembro de 2006.

A louca morte do Maick * (Problemas crônicas de adaptação)


Morreu!
Enfim!
Enfim morreu, depois de muitas tentativas, uma das maiores personagens do underground do serviço artístico social de nossa querida cidade.
Grande e valoroso foi o seu esforço para nos livrar da ferinitude que o acometia em seus raros álacres dias e da imensa nuvem de tristeza cor de doce de leite em ponto de corte (ele não é negro) (também não é branco) (a cor mais aproximada é a de doce de leite em ponto de corte. Embora isso pareça uma declaração convertida no resumo do supra-sumo da baitolagem humana). Chegou a freqüentar a Assembléia de Deus, onde, por sinal, sentiu-se em casa por muito tempo, segundo informação de primeira dada por um catervático de quinta infiltrado na congregação (diz que ele adorava os hinos). Depois, eram as drogas novamente, uma mais perigosa que a outra. A pior delas foi a M., cheirada, lambida, consumida avidamente até a exaustão de ambos os corpos, frágeis corpos, na mais pura emoção ( a entidade em questão (o Maick) assumiu a veridicidade dos fatos). Foi um momento de glória e muita coragem, afinal, quantos são aqueles que podem vangloriar-se de tamanha indigestão.
Uma das mais célebres tentativas foi aquela de pular da Belém - Outeiro usando uma rede como pára-quedas e levando a dita M. nos braços. Não é preciso dizer que o resultado de tal bravata foi uma internação de quatro meses na “Ordem Terceira”, onde conseguiu sobreviver as constantes aporrinhações das freiras. Depois, logo no dia em que, debilitado, teve alta ,ao saltar do carro, na cadeira de rodas, foi recebido por um coro de mórmons, que foram lhe entregar o Livro e perguntar se poderiam fazer um agradecimento por sua cura e pela conversão de mais aquele precioso irmão.
Outra tentativa foi aquela quando tentou uma overdose de jujubas: Fumou três pacotes de oitocentos gramas de sabores diversos Dori®, isso depois de beber cinco litros de Ki-suco® de uva.
Também teve aquela vez em que foi prestador do Santa Edwirgens por R$ 50,00 mensais (esse erro eu também cometi).
Seu único refúgio era aqui, onde eu nunca deixei o papai tentar convertê-lo rumo a Deus.
Maick fez um estágio com o Inri Cristo (soube que o Homem disse que o Cara era o Espírito Santo encarnado-ou cor de doce de leite em ponto de corte), mas parece que não deu certo tal conflito de santidades.
Mesmo com suas obrigações para com suas cinco mulheres, e com seus doze filhos, ele foi um fiel na arte de levar a palavra de seu deus (eu, no momento), a todo o canto que seus pés cansados os levavam. Fosse o CAN ou a República. De dia ou de noite. Chovesse ou fizesse sol.
Morreu de forma besta e inglória: atravessava a rua comendo uma banana chifre de vaca, quando a brasília do Seu Miguel, lá de perto do Seu Lorí, a toda velocidade, atropelou uma tartaruga, fugindo sem prestar socorro, o que chocou meu amigo, que teve um infarto, e na ambulância da SAMU pode ainda dizer que a vida era injusta e o homem era cruel, mas só pôde dizer isso, pois o carro foi atropelado por um rinoceronte, que fazia turismo na cidade, e jogado a cem metros de distância, bem em cima de uma representante da terceira idade, que fazia o transporte de quinze quilos de explosivo plástico com três detonadores armados, que por sinal explodiram, arremessando sua carcaça a duzentos quilômetros por hora num autidó, sendo eternizado pictoricamente bem à vista de todos.





*Os nomes foram trocados para preservar a imagem dos envolvidos que ainda estão vivos.

*Um nome foi posto apenas em inicial, para que eu permaneça vivo (e não sofra mais um processo).














Belém, 5 de janeiro de 2007.

Memórias rosa - ciclâmen (Problemas crônicas de adaptação)


Meu nascimento foi muito conturbado: não fui muito feliz em meu momento de vir à luz, pois caí em uma fogueira de vaidades; bichos estranhos - uma agulha discutia com uma (um carretel de) linha:
-Por que está aí, enrolada, de nariz em pé?Tá se achando, aposto.
-Deixe-me, senhora. (disse a linha, com seu acentuado sotaque lusitano oitocentista,que me impede a exata transcrição fono-mórfica).
-Deixá-la?(oh!Insutil agulha) Deixar?Por quê? Se estou lhe dispondo meus humildes préstimos, ao informá-la de seu arzinho insuportável, já que me deu na cabeça fazê-lo.
Era como se eu fosse um mero objeto decorativo, sem função. E opinião, no caso.
-Que cabeça?Ora, pois. A senhora não é alfinete: É agulha. O que tens de cabeça, é furada ainda; não tem nada dentro. Cuide de sua vida, ó pá!
-Mas você é muito metida, fresca! (disse a boquirrota agulha)
-Sou sim.
-Por que, ora?
-Porque costuro,ora! Quem costura este vestido?!
-Eu! Claro que sou eu. Dá pra ver, não?
-Ora (impávida, a linha), fofa, você fura o tecido. Quem junta, prende, dá forma, sou eu! Ó, pá!
-É, mas quem fura o pano sou eu; eu puxo você. Não fosse eu, queria ver! (disse a agulha, mercurocrômica de raiva)
-É, filha, de fato os batedores vão diante do rei...
-Rei?! Você?! Onde?
-Rainha, por favor. Mas não necessariamente isso, queridinha, apenas friso o seu papel subalterno e braçal, que ninguém ira lembrar...
Estavam nesta de me ignorar sublimemente, no que chega a modista da baronesa (estávamos na casa de uma baronesa) que, pegando da agulha, pôs-se a costurar, com a linha enfiada na agulha. E tal agulha falava:
-Então, D. Linha, o que diz agora, ao ver que a preocupação desta digna costureira é apenas comigo: BELÍSSIMA AGULHA Nº. 18 DE INOX® PLATINADO?!
A linha nada disse. Aguardava o golpe final, que seria seu.
A agulha foi para a caixa de costura e voltou com outra linha que, estrangeira, não entendia a discussão, e sobre o, alinhavado, foi feita, com esta, a costura definitiva, enquanto que a linha da arenga, iludida, dizia à agulha:
-Então, D. Agulha... Quem fica na caixa? Quem vai para a festa, no vestido? Quem vai sair, passear?...
E estava nesse ponto quando ouviu o plic-plic(sic.Se o Machado disse que era, quem sou eu pra não repetir... ) da tesoura de arremate cortando os alinhavos de que a linha se orgulhara tanto.
Na sala suja puderam, finalmente, ver a verdade: Quem foi ao baile foi este seu humilde criado: BELO VESTIDO DE TAFETÁ ROSA-CICLÂMEN que hoje, fora de moda, jaz em um empoeirado armário.
À linha com a agulha, disse um alfinete coisa assim:
-... idiotas, vangloriam-se de seu trabalho, mas quem goza os frutos dele é o vestido.Consolem-se de sua falta de visão.
Elas calaram-se; eu fui e gozei. Mas destino é destino,e hoje quem me consola é esta viola fora de moda(para citar Edu Lobo), companheira de armário e professora de tristezas mil,repetindo:
-Enquanto servirmos nos usarão. E só.





Releitura: Um apólogo(machado de Assis)
Profª: Rosângela Machado(Língua portuguesa)
Belém, 12 de setembro de 2006.
(Ela não aceitou este texto devido o fato de eu não ter o mínimo respeito pela observação da quantidade de linhas a serem escritas.)

Crônica científica sobre os processos dos processos de estratificação na sociedade contemporânea (Problemas crônicas de adaptação)


Hoje minha mente cansada confirmou o que há muito suspeitava: as crônicas (ou as minhas, pelo menos) têm substância concreta. Prova disto é o fato de que duas crônicas não podem ocupar o mesmo espaço na minha cabeça sem que eu construa um puxadinho alicerçado com bastante Gerovitol® e outros polifosfatos violentíssimos.
Ontem à noite eu tava com uma puta duma crônica zanzando na minha cabeça, sabe? Uma daquelas crônicas arrasadoras que conseguem com uma frase imbuída da essência de minha ferinitude fazer com que caiam mil a minha Direita e mais mil a minha Direita (a Direita que se fôda! Vive la Gauche!) e eu continue no sótão de minha perversidade, sobranceiro e incólume (de preferência) como sempre (de preferência!). Pois sim, eu estava lá, com a danada feita só faltando digitar a maldita, quando de repente sou assolado por esta crônica de agora que, descaradamente (fodida!), mandou sua antecessora para o meu limbo literário pessoal, de onde não sei se um dia poderei resgatar e trazer à luz a coitadinha.
Pois é... Coisas tão pequenas me aborrecem tanto...
Eu estava nesse lamento até inda há pouco, quando percebi que hoje em dia já não pensamos mais sermos irmãos, não nos sabemos mais saídos do mesmo barro, filhos da mesma Eva e do mesmo Adão (filhos da puta,alguns), em nossa grande maioria nos sequer nos damos ao trabalho de pensar o que quer que seja que não seja com a finalidade de satisfazer as nossas mais mesquinhas e doentias paixões, os nossos mais íntimos e vulgares aceitáveis fetiches sociais.
Lindas putas, com as calças Gang paraguaia©, levantando metade das celulites de refri Tuchaua, com as calcinhas todas no cu, que passam do alto de seus tamancos e não me olham (provavelmente por não me enxergarem, tenho menos de um e sessenta; mas me irrito do mesmo jeito com essa empáfia infundada). Senhores com ternos e gravatas de péssimo gosto (todos os ternos e todas as gravatas são de péssimo gosto) que, arrasados, pegam o mesmo ônibus em que eu, suado, vou trabalhar e pisam nos meus lindos pés, e em minhas lindas unhas pintadas com as mais lindas cores, e que as vezes arrancam fios de minha barba quando, para não sujarem suas maletas de segredo as suspendem, engatando seus fexicléres nela (a barba). Aquelas criancinhas com cara de bunda, voltando da escola babadas (nunca entendi por que se babam tanto), pela mão da empregada negra até o carro onde o motorista (negro) tá com a mão atolada na irmã Rebelde® do garoto (também nunca entendi esse gosto mórbido que as gatinhas tem pelos negões. Não sei se eu comeria um). Enfim, toda essa pseudo-classe-media-alta que se julga diferente de nós, e que se acha indiferentes ao que eu digo em minhas humildes laudas (humildes, uma porra!): EU SEI DE SEU SEGRÊDO!
Seu mais íntimo segredo está em minhas mãos, ou melhor, nas mãos do recepcionista.
Vocês chegam discretos e sorrateiros, com seu pacote, olham prum lado e pro outro, jogam no balcão e saem correndo e lá, para análise, fica a prova do ato criminoso que nos iguala: VOCÊS TAMBÉM CAGAM!!E eu vi a merda toda marrom, verde, azul, amarela, vermelha (russos e cubanos). Merda .
Simplesmente merda.
A merda que assola a nação e inunda nossos corpos, irmãos. Que corre uivando em nossas tripas depois de um feijoada ardente. A merda que nos faz dar peidos homéricos (Homero peidava?). A merda que te impede de olhar nos meus olhos e me dar um beijo declarando esse amor enrustido que me tens.
A merda.
(que merda)
Essa merda toda que nos converte em farinha do mesmo saco (de merda).
Então senhora gorda que trabalha no banco; craque da seleção; líder da gangue do bairro; super-modelo; filhinho de papai...
É isso.
Agora eu já sei.Vou contar pra todo mundo.
Faz o seguinte, ó: enfeita, e depois planta uma flor (é o que eu faço pra despintar o meu cheiro).







Belém, 11 de janeiro de 2007.

Inspiração musical (Problemas crônicas de adaptação)


Certos dias é preciso fazer uma crônica, não que vá viver com ela. A única coisa crônica com que se vive é uma diarréia crônica, ou uma cárie crônica, ou mesmo uma bronquite crônica. Porém, essa pequena digressão, jamais me fará sossegar o facho de la ferinitude, afinal, nós vivemos de todo o mal que pudermos infligir ao próximo, em todos os orifícios constantes e provisórios, sem que nos façam o mesmo, segundo Torquemada, então pratiquemos:
Inspiração é um evento inerente a todo o ser humano, assim como o dinheiro, e assim como o dinheiro, alguns são abençoados com muito enquanto que outros por pouco, não reconheço os parâmetros de legitimidade e imparcialidade da justiça divina, e calem-se, pois, segundo Torquemada, só irão para junto do pai aqueles que se contentarem com o pouco que têm. E assim a inspiração vem em rasgos de luz purpurinada para aqueles escolhidos, em momentos geralmente cruciais de suas vidas vulgares, para que eles não tenham tempo de realizar o que deveriam fazer (perdi o fio da meada), porque estão se lamentando (imaturos).
Aqui, contaremos histórias reais acerca de momentos em que, junto com muita maisena, inspiraram-se circunstancialmente vários artistas para criar textos que você ouve cantados e pensa que são uma coisa, mas na verdade são outra muito diferente e muito menos nobre.Historias reais sobre fatos (que você não conhece) que inspiraram certas canções (que você conhece)(e que os autores, com uma potoca besta, querem esconder). Saca só:
...Estou só e hoje faço com meu braço meu viver... (Travessia): Paquerador desiludido,convertendo-se ao onanismo (que a deixou escrita com sêmem nas areias de Mosqueiro).
...Fazer você chorar no amor, como quem ama chora... (Ah!Coração): Declaração de psicopata sádico à sua vítima amordaçada (que ele jura que foi sua esposa na encarnação contemporânea a Maomé), colhida de uma fita cassete que ele mandou pro programa “Fala que eu te escuto”.
...Vem vamos logo acabar com esse melodrama: Vamos pra cama... (Frígida): Tarado de 16 anos , recolhido à FUNCAP (que vai ser solto semana que vem, baby), à uma monitora recalcitrante. Colhido do relatório mensal da mesma.
...Eu gosto de ser mulher... (Idem(eu acho)): Travesti juvenil, se justificando para o pai, militar da ativa(e passiva incubada)durante uma sessão de espancamento pós-flagra. Colhida de um B.O. da delegacia da Pedreira, de onde foram encaminhados do conselho tutelar, depois do hospital, é claro, por obra de Graça Divina (este é o nome da vizinha que denunciou o espancamento, e proporcionou a chegada do jornal Barra Pesada, que invadiu a casa na exata hora em que o pai tentava enfiar uma jaca no rabo da pobre bichinha, que, por sinal, pediu pra reportagem voltar meia hora depois, com uns cigarros).
...Já fui mulher eu sei... (idem(eu acho, de novo)): Pré-bicha pedindo permissão para dar, sob a alegação de que é ótimo; que tivera certeza do efeito benéfico depois de umas sessões de terapia de regressão acompanhada (por um bofe belíssimo). Disse a senhora de 93 anos, que criava o desnaturadinho, a se benzer atroz, compulsiva e desesperadamente.
... É uma dor canalha que te dilacera... (Canalha): Relato de jogador de futebol, na categoria especial de cegos, depois de acordar do desmaio, que o golpe de um adversário de jogo lhe proporcionou, ao errar a bola, lhe acertando as suas, na Holanda (Na Holanda!!Países baixos!! Sacaram?! >espero<). ...Oh!Pedaço de mim. Oh! Metade amputada de mim. Leva o que é de ti, que a saudade dói latejada. É assim como uma fisgada no membro que já perdi... (Pedaço de mim): Música composta para a campanha de arrecadação de fundos para pagar o advogado do caso dos emasculados de Altamira. Arquivo da campanha. ...Fica faltando um pedaço... (Faltando um pedaço): Djavan entrando na campanha (não se pode desperdiçar uma oportunidade de merchandaizi, afinal,nesses tempos bicudos, bobeatum sunt,enrabatus est.). Arquivo da campanha. ...Alguém me disse que tu andas novamente... (Alguém me disse): Essa é antiga... Um primo, ao saber do boato do barbudo tê-la curado, escreve pra prima paraplégica da Galiléia. Fonte :Manuscritos do Mar vivo. ...Como vai você? Eu queria saber da sua vida... (Como vai você?): Composição de uma vizinha minha cadifronti em parceria com outra duladiladucanal, altamente fofoqueiras. Fonte D.I.V.A.(Departamento de Informações da Vida Alheia). ...Agora eu sei, sei, sei, sei, sei. Agora eu sei... (Agora eu sei(É obvio que o título de tal música medonha seria este)): As ditas vizinhas comentando, felicíssimas, a pesquisa de campo. ...Há muito tempo você já não está mais dividindo as coisas comigo... (Coisa de louco): Um ex-colega de trabalho (Graças à Dadá!) sanguessuga reclamando da vida a seu sustentáculo (não pude resistir ao trocadilho. É mais forte que eu), uma outra colega de trabalho sem nenhuma auto-estima. Essa eu mesmo vi. ...Eu não tenho tempo; eu não sei voar; dias passam como nuvens: em brancas nuvens: Eu não vou passar!(Eu não tenho tempo): Recusa de uma secretária do lar em estender seu horário para passar uma camisa de brocado de tafetá, de seu suspeito patrão. Trilha sonora do filme “A revolta das domésticas não domesticadas”. ...Amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada... (Amor,meu grande amor): Mulher infiel, com o bofe gemendo em off, torcendo para o marido, que ficou de chegar as oito para levá-la ao cinema, se atrase, ou morra (Obs.:falta cinco prazoito). Confissão do marido (que não se atrasou,e lavou a honra em sangue e testículos de ricardão) ao encarregado do inquérito. ...Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais pra ocultar e eu nem quero mais calar, já o brilho desse olhar foi traidor e entregou o que você tentou conter, o que você não quis desabafar... (Explode coração): Uma pessoa muito cruel, deixando bastante claro para um companheiro de assento de ônibus, portador de um mal cheiro e uma tez de pele meio esverdeada, que percebeu que não tinha dado pra ele esperar a parada de casa: O cara verde tinha se cagado ali mesmo.Anais do departamento de esgoto. ...Primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça... (Grito de alerta)Música que eu sempre escuto antes delas correrem atrás de mim com o ancinho ou me usar como alvo em arremesso de vaso. Fonte: Minhas ainda não escritas memórias. Pois é... E você que era um crédulo romântico,que acreditava em elefantes xadrez voando com asas de beija-flor... Me desculpe. E siga um conselho: A vida é dura ,portanto tenha o cuidado de jamais cair de bunda na vida sem uma lubrificação adequada. (Quando se resolver a cair, belezinha, me conte como é, porque aqui, cair só se for como os gatos. Ficar de pé é vicio.) 


Belém, 04 de fevereiro de 2007.

Spiritual Sen-Kin-Din (Crônica de um porco astral, psicografada e traduzida por um corpo físico) (Problemas crônicas de adaptação)


1.Transcrição:
Cóiiin-oinc coín.

Coian-coian oinc cushe cushi iaiun cuíiii coi frunf rrrrrrr rum rum rum ronc.
Quiron quiron coré core cush crush crushiiiit ronc ronc oínc (coi frunf) rrrrrrr (blost!).
Scretch ecrith ciuic cuic i iii iiic coian coian coian correeê grunf grunfunf oinc cushe cushi iaiun cuíiii coi frunf coian correeê ronc oínc óinc iiawnnc Quiron quiron coré core cush crush rum coian oinc cushe cushi iaiun coi frunf rrrrrrr.
Suiiic coian coian coian correeê grunf: CRUSH CRUSHIIIIT RONC!

Currian Fudit: Pigmalion Porcael.

2. Tradução:
Salve irmãos (sem ofensa) terrenos da terra e redundância.

Aqui vivo em paz e tranqüilidade, arrependido de meus parcos e porcos pecadihos e trocadilhos de minha pouca vida terreal, antes de, na glória da imolação, presunteá-los com minha morte.
Acho importante, nesta humilde mensagem de um porco que atingiu os píncaros que a alma humana jamais alçará (pois que lhe falta a doce tessitura da carne e o acompanhamento de um bom vinho branco) lembrar-lhes, sem mágoa, da minha curta vida.
Bem, como todo e qualquer suíno, nasci piquixixito e fofinho. A tenrice de minha idade e a meiguice de minha pessoa (nunca sei se posso escrever sobre a “pessoa” de um animal morto sem pedir permissão aos parentes vivos. As vezes “pessoa”, enquanto termo, agride a memória do morto por subnivelá-lo a seus algozes) conjurava contra mim, quando eu,ingênuo, sorria ante os elogios que me faziam:
-Gostoso!
-Égua do pernão!
-Ah, se eu te pego: Te deixo todo assado!
-Esse teu rabo tá me deixando com água na boca!
Eu sempre pensei que eram cantadas, mas eram, na verdade, o prenúncio de meu fim.
Triste fim.
Com alguns dias de idade passei por um dos maiores testes de minha resistência moral e física: fui castrado a sangue frio. Inda jogaram meu culhinho (ainda não era culhão) para os cachorros comerem. Menino! Doeu horrores!
Com alguns meses, eu como sempre, comendo sempre, estava trancafiado na baia, sem amor (nem de minha mãe. Eu não sabia quem era a porca), sem amigos que não fossem os outros porcos para conversar (e eles só falavam de porcaria, da Celine Dion e do Black Eyed Peas), eu clamava ao Todo-poderoso-pai-dos-porcos que iluminasse ao granjeiro pra ele ter a grandeza de instalar uma TV a cabo (isso em altos grunhidos) quando eis que adentra pela porta (engraçado: aforar não significa sair pela porta. Eita língua complicada, meu!) o Juvenal Eleutério III Junior, conhecido como o terror das bezerras, diante do qual todos os porcos mais velhos recuaram, ficando apenas eu, bobo, sorrindo-lhe, naquele justo dia em que ele resolvera-se a variar as vacas. Fui vergonhosamente seduzido com propostas de um passeio ao ar livre e com ingressos para o show da Miss Pig e sodomizado, com requintes de crueldade lá no fundo do curral (pra quem não sabe, curral é um local ermo que presta-se a alcovitar curras). Foi o fim de minha vida como eu a imaginava: Tornei-me uma porca (o garoto me levou pra sua casa, escondido do pai, é claro, para ser seu escravo sexual).
Um dia, depois de tantos dias de amolação, veio o dia da imolação, onde eu fui morto e exportado em várias embalagens de várias formas, sem que sequer se levasse em conta o fato de eu estar tuberculoso (ganhei ainda, pasmem, aquele selo de qualidade “PORCO SADIO©”) e os estertores do pranto de meu marido, Juvenal Eleutério III Junior, ao me ver em meus próprios estertores pré mortem(existe este termo?) pós-sangria (pra carne não ficar escura).
Foi minha forma astral que viu de cima, do céu dos porcos, meu corpo, frágil corpo, com a mais pura emoção, ser pendurado num gancho, pelado, esquartejado, estripado (parece que esse foi antes)e totalmente aproveitado (sociedade capitalista) antes de voltar para o início deste parágrafo, onde eu, por ser péssimo em leitura cronológica, fui distribuído para fora do país, para as crianças gordas e louras da Dinamarca (ali perto da Guatemala) que, apesar de nunca terem visto um porco ao vivo, são os que mais consomem porco ao morto.
E aqui, depois de concluir minha odisséia, junto ao Demiurgo, e de contá-la a vocês, irmãos, retorno a mensagem principal: PAREM DE COMER CARNE DE PORCO, SEUS FILHOS DA PUTA! É POR CAUSA DISSO QUE MUITOS PORCOS INOCENTES COMO EU PASSAM POR INFAMANTES SUPLÍCIOS QUE SÓ VOCÊS, SEUS PORCOS DO CARALHO, PODEM INVENTAR! NÃO INCENTIVE A MATANÇA INDISCRIMINADA DE DOCES ANIMAIS (SOMOS REENCARNAÇÕES DE GENTE RUIM COMO VOCÊ!). COMA UM ABACAXI, SALVE UM PORCO, E SE NÃO QUISER SALVAR O PORCO, PORRA, ENFIA, ENTÃO, O ABACAXI NO TEU CU!

Porcus Angelicum: Pigmalion Porcael.




Ps: Você deve estar se perguntando como o meu texto foi tão grande, se o do porco foi tão pequenino. E eu lhe digo que você jamais deve menosprezar o poder de síntese de um porco.


Ps.2. Outra pergunta que te assola deve ser como eu entendi o que o porco disse:,Temos um espírito muito parecido.


Ps.3. E o título?Eu também explico cara: Lá perto de casa tinha um centro espírita, a gente brincava na frente, eles deixavam. Depois das sessões eles faziam um lanche. Era deles, é claro, mas sempre nos davam algum doce, geralmente uns quindins enormes e suculentos que uma mulher negra e muito simpática fazia. Ela já deve ter morrido, nunca mais a vi. Pois, então, é por isso que esse é um texto ESPIRITUAL SEM QUINDIM.


Ps.4. Qual a razão de eu ter escrito ESPIRITUAL SEM QUINDIM de outra forma? É uma homenagem a um japonês que tinha no dito centro.


Ps.5. Mais alguma pergunta, Porra???



Belém, 28 de fevereiro de 2007.

O protesto (Problemas crônicas de adaptação)


...e uma vez foi dito que Bush era o presidente que mais seguia de perto, e com extremo rigor, os preceitos éticos cristãos, em especial aquele que reza: ama teu próximo como a ti mesmo. Tudo isso justifica-se por meio das suas últimas decisões em relação aos seus longínquos, árabes em geral, e iraquianos de preferência, que se foderam pelo simples fato de não terem uma casa de praia em Malibú. Se ficassem perto...
Abençoada foi sua cruzada, afinal; sua influência em muito ajudou a execução de Hussein, que por sinal estava preso, indefeso, e provavelmente com hemorróidas.
O cachorro aqui de casa - tem algum parentesco sinérgico-holístico. Até mesmo pelo nome (chama-se Abdul Abdulah -Yalah Ashan-Narran Niavara)-soube de sua prisão apenas no dia de ano novo e, prevendo seu trágico desfecho, aproveitou-se do fato de que minha mãe e meu irmão saíram para cumprimentar alguns amigos: veio sorrateiramente ao meu quarto, onde eu estava com o meu pai assistindo”Pearl Harbour”, no SBT (concentradíssimos para podermos decifrar a imagem horrível da emissora), nos trancou sem que percebêssemos, foi até a sala, e sem que eu saiba como atou a corda em que a mamãe estende roupa na cumeeira da casa, deu o fúnebre e fatídico nó, desligou o telefone (creio que odiaria ser interrompido), subiu numa cadeira (circunstancial), ajeitou o laço em seu frágil pescoço(provavelmente), e saltou nas brumas de encontro a são Lázaro (aquele das perebas...Mas aí, são conjecturas). Deixando pra trás (ou pra frente.Não se conhece ainda a relação espaço-tempo no post-mortem canino) nós, seus amigos gente, que deixamos prender Saddan; Maura e Caco, seus amigos gatos; e um pratinho intocado de ração, além de quase meio quilo na lata.
Verificando seu espólio, para ver se havia alguma coisa a doar aos cães da vizinhança, encontramos quatro palitos de osso e meio, seu cobertor, alguns brinquedos (uma sacola plástica e três cadernos de esporte do Diário) e o meu Mp3, que eu lhe havia emprestado, com o seu testamento em PDF protegido contra alterações e cópias, onde pormenorizava seus parcos bens e o destino desses após seu passamento (foi generoso conosco, seus familiares), e uma mensagem em Wave, da qual transcrevo o trecho a seguir:
“... e neste meu momento cristalino, o que posso dizer, além de agradecer a acolhida nesses quase cinco felizes anos, é: (partindo daqui, passa a vociferar, ou latiferar, como preferirem) au daqueles, desculpem a força do hábito, ai daqueles que depois de muito esquecerem o que é morder (como eu há muito o esqueci), esquecem aos poucos, de forma vulgar e vil, a força de seu latir (como vocês, amigos, vem tristemente esquecendo - não digo os primitivos gatos, que muitas vezes dividiram comigo o prato da, graças a Deus, farta ração diuturna, e que nunca souberam latir, infelizmente, para minha tristeza), já não abrem a boca contra o que não concordam. Ai daqueles que só abrem a boca contra o que a televisão manda. Ai daqueles que não tem coragem de alienar-se de tudo aquilo que nos faz mal. Ai dos sectários midiotas da besta que os manipula e os faz de besta sem que vocês bestas sequer percebam (Bestas!). Ai daqueles que prostituem a sua mentalidade nativa em prol de uma mentalidade socialmente apresentável e conveniente. Ai de vocês que, ufanos, acordam pela manhã para um árduo dia de trabalho e depois de seu banho (palavra horrível!) matinal com pouca água e, pouco sabão e pouco xampu perfumado (como o meu), antes do magro café, ao se vestir se olham no espelho e se vêem com dois sacos e quatro testículos, não se sintam felizes e mais machos, simplórios, pois o que ocorre, infeliz, é que tem alguém te enrabando e tu nem percebestes(aqui late bem baixinho), largo. (Latindo em um tom mais comedido) Gostaria de continuar, mas aqui a corda começa a embargar-me a voz e me impede de prosseguir em minha mensagem a vós (se ele estava digitando o testamento, com a corda no pescoço,a corda tava no quarto? Ou como o testamento estava no saco dos seus brinquedos? Ou como conseguiu,pendurado converter em PDF ,se o computador não fica na sala? Ah! Fôda-se a lógica humana!), povo deste meu Brasil varonil, então termino. Ponto.
Obrigado pelo Mp3. Espero não tê-lo arranhado.
Adeus.”
Lembro da tristeza de encontrar o corpo; e do choque que minha mãe levou quando soube do ocorrido.
Lembro também do que foi a recusa do jornal de colocar seu nome no obituário.
Lembro de muitas coisas.
Lembro de muitas coisas que não gostaria de lembrar.
Esqueço sempre da hora de terminar o texto.




Belém, 5 de janeiro de 2007.

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